Ray Trancing
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Cirurgia refrativa com ray tracing: a personalização que olha cada raio de luz

Para quem não tem tempo:

A cirurgia refrativa com ray tracing é a forma mais personalizada de planejamento que temos hoje. Em vez de tratar o olho com base em médias estatísticas, o sistema constrói um gêmeo digital do seu olho a partir de um único exame que junta topografia, tomografia, biometria e aberrometria. Depois, o software calcula o trajeto de cada raio de luz dentro desse modelo 3D e desenha um perfil de ablação exclusivo para aquele olho. Os estudos mostram resultados acima do que se esperava da cirurgia refrativa convencional, com uma fração significativa de pacientes atingindo visão melhor que 20/20.

O que é ray tracing aplicado ao olho?

Ray tracing é uma técnica de modelagem óptica que rastreia, ponto a ponto, o caminho de raios de luz através de um sistema. Em computação gráfica, ela é usada para gerar imagens fotorrealistas em jogos e filmes. Na oftalmologia, aplicamos a mesma lógica matemática ao seu olho.

Até agora, mesmo as cirurgias refrativas personalizadas trabalhavam com aproximações. Os sistemas atuais medem a frente de onda na pupila ou o relevo da córnea e, a partir desses dados, gera um perfil de tratamento que tenta se aproximar do ideal para aquele olho. Funciona bem, mas ainda usa um modelo médio de como a luz se comporta dentro do olho.

Com ray tracing, esse modelo médio sai de cena. O software desenha cada raio individualmente, considerando como ele atravessa a córnea anterior, a córnea posterior, a câmara anterior, o cristalino e a cavidade vítrea – e mais: considera que o jeito que a luz passa por cada meio (índice de refração) é diferente — e prevê onde ele vai parar na retina. Depois, simula virtualmente diferentes cirurgias até encontrar o perfil que entrega a melhor qualidade óptica naquele olho específico.

WaveLight Plus avalia múltiplos perfis de correção e entrega o que apresenta o melhor resultado
WaveLight Plus avalia múltiplos perfis de correção e entrega o que apresenta o melhor resultado

O “gêmeo digital” do seu olho

Para a cirurgia refrativa com ray tracing funcionar, o sistema precisa de muitos dados sobre o seu olho — e dados que conversem entre si. Em um único exame pré-operatório, conseguimos hoje obter de forma integrada:

  • Tomografia corneana de alta resolução, com mapeamento das superfícies anterior e posterior;
  • Biometria ocular, com todas as distâncias entre cada estrutura do olho;
  • Aberrometria (medida das imperfeições ópticas, incluindo as de alta ordem)

É aí que entra o conceito de Digital Eye Twin, ou gêmeo digital: o resultado é um modelo 3D do seu olho construído a partir de centenas de milhares de pontos de medida. É esse modelo — e não uma média de olhos parecidos com o seu — que serve de base para o planejamento da cirurgia. Como o gêmeo digital reúne tudo num único exame, dá pra eliminar inconsistências que aconteciam quando aberrometria, topografia e biometria vinham de aparelhos diferentes, em momentos diferentes.

O equipamento que uso (Sightmap – Alcon) é tão preciso que ele mede a refração (grau) a ser corrigido, que comparamos com a medida do consultório. Quando as dias medidas são bem feitas, elas costumam ser praticamente indênticas.

Sightmap medindo um olho antes da cirurgia refrativa com Ray Tracing
Sightmap medindo um paciente meu antes da cirurgia

Como o ray tracing se compara aos outros tipos de cirurgia refrativa personalizada

A cirurgia refrativa evoluiu muito nos últimos 20 anos, e a personalização foi ficando cada vez mais sofisticada. Para você entender onde o ray tracing se encaixa, vale relembrar os tipos de planejamento que existem hoje:

  • Convencional: usa apenas o grau, a curvatura e o eixo do astigmatismo. Resultado funcional excelente, mas tende a induzir mais aberrações de alta ordem (halos de luz ao redor de faróis e semáforos, por exemplo).
  • Otimizado pela frente de onda (wavefront-optimized): não mede as aberrações do paciente, mas aplica um algoritmo padrão para minimizar a aberração esférica induzida pela cirurgia. É o que muita gente conhece simplesmente como “LASIK personalizado”.
  • Guiado pela frente de onda (wavefront-guided): mede as aberrações do seu olho na pupila e tenta corrigi-las junto com o grau. Útil principalmente em retratamentos e olhos com muitas aberrações de alta ordem.
  • Guiado pela topografia: usa principalmente o mapa da córnea como base. Indicado em córneas irregulares.
  • Ray tracing: integra todos esses dados em um modelo 3D e simula o trajeto dos raios para definir o melhor perfil de ablação.

A diferença prática é que o ray tracing não escolhe entre “ver a córnea” ou “ver a frente de onda” — ele olha o olho inteiro como sistema óptico. E, antes de gerar o tratamento final, simula virtualmente diferentes cirurgias para escolher a que vai entregar a melhor qualidade visual.

O que os estudos mostram?

Os primeiros dados publicados na literatura científica internacional são bastante consistentes. Em um estudo prospectivo com pacientes míopes operados com LASIK guiado por ray tracing, praticamente 100% dos olhos chegaram a 20/20 ou melhor, cerca de metade alcançou 20/12,5 ou melhor, e 8% atingiram 20/10 (uma visão acima da considerada “perfeita”)1.

Outro estudo prospectivo, com 586 olhos, mostrou que 100% atingiram visão de 20/25 ou melhor e quase 99% chegaram a 20/20, com 98,6% dentro de ±1 dioptria do alvo refracional2.

O FDA americano também aprovou a tecnologia depois de revisar os resultados, e uma análise comparativa entre os estudos de aprovação mostrou que, em 12 meses, 70,2% dos olhos tratados com ray tracing alcançavam 20/16 ou melhor, e 94,4% chegavam a 20/20 ou melhor3.

Quem pode se beneficiar?

A tecnologia hoje é aplicada principalmente para miopia, astigmatismo e hipermetropia. Na minha avaliação, ela faz especialmente sentido para:

  • Pacientes que querem o máximo de qualidade visual possível — não só “tirar o óculos”, mas enxergar acima de 20/20.
  • Olhos com aberrações de alta ordem mais elevadas, que se beneficiam da correção mais fina.
  • Pessoas com geometrias corneanas atípicas, em que um modelo médio é menos representativo.
  • Profissionais que dependem de qualidade visual em condições difíceis: dirigir à noite, atividades que envolvem detalhes finos, esportes que exigem percepção espacial precisa.

Como sempre, a decisão é compartilhada. Existem situações em que outras técnicas — SMILE pro, FEMTO-LASIK convencional, PRK transepitelial — podem ser uma escolha igualmente boa ou até melhor para o seu caso. Tudo depende da espessura e do formato da sua córnea, do grau, da idade, do estilo de vida e de outros fatores que avaliamos na consulta.

O procedimento em si muda?

Não. Do ponto de vista do paciente, a cirurgia continua sendo um LASIK: anestesia em colírio, dura poucos minutos por olho, recuperação rápida, retorno ao trabalho em geral no dia seguinte. O que muda é o que acontece antes da cirurgia — todo o planejamento computacional que define como o laser vai trabalhar.

Quando você chega ao centro cirúrgico, o software já tem o plano único para o seu olho. O laser aplica esse plano com a precisão de sempre, mas guiado por instruções muito mais individualizadas.

E quanto ao custo?

Esse é o auge da personalização e precisão de medidas. Tem em poucos lugares e poucos cirurgiões utilizam. Não é algo que o convênio cobre e também não é uma “customização” convencional.

É a cereja do bolo. Por isso cirurgia refrativa com ray tracing tem um custo um pouco alto que o FemtoLASIK ou mesmo o personalizado tradicional. Isso é esperado — a tecnologia envolve um equipamento adicional para o exame integrado, um software de planejamento mais sofisticado, e licenças específicas. O valor exato varia conforme o caso e a clínica, mas é importante saber que existe essa diferença para você não se surpreender. É próximo do valor de SMILEpro, outra técnica que utiliza tecnologia de ponta.

Vale a pena? Para quem quer extrair o máximo de qualidade visual possível e tem condições, tenho certeza que sim — especialmente considerando que estamos falando de uma decisão para a vida toda. O que veio antes está longe de ser ruim (e é ainda o que eu mais faço no dia a dia), mas Wavelight Plus (o nome comercial) é uma evolução.

Já está disponível no Brasil?

Sim. A tecnologia chegou ao Brasil em 2025 e já está sendo usada em alguns centros, incluindo aqui em São Paulo. O Einstein tem e é onde costumo usar

O que vale lembrar

O ray tracing não é uma técnica nova de cirurgia, é uma forma muito mais sofisticada de planejar. O passo mais importante que demos na personalização da cirurgia refrativa na última década. Continua valendo tudo o que sempre vale na refrativa: avaliação criteriosa, exames pré-operatórios detalhados, indicação correta. A tecnologia não substitui o julgamento clínico; ela amplia o que conseguimos fazer com ele.

Se você está pensando em se livrar dos óculos e quer entender qual a melhor técnica para o seu caso, vamos conversar. Agende uma consulta aqui e podemos avaliar juntos as suas opções.

Perguntas frequentes

Cirurgia refrativa com ray tracing dói?

Não. O procedimento é feito com anestesia em colírio. Durante a cirurgia, em geral o paciente sente apenas uma sensação de pressão por alguns segundos. No pós-operatório imediato, pode haver leve desconforto ou sensação de areia no olho, que melhora rapidamente.

A recuperação é diferente do LASIK normal?

Não. Como o ray tracing é um tipo de planejamento aplicado a um FemtoLASIK, a recuperação é a mesma: a maioria dos pacientes já enxerga bem no dia seguinte e retorna ao trabalho rapidamente.

Qual a diferença entre ray tracing e LASIK personalizado tradicional?

O LASIK personalizado tradicional (wavefront-guided ou topography-guided) corrige o grau e algumas aberrações usando um único tipo de medida — frente de onda ou topografia. O ray tracing integra todas as medidas (topografia, biometria, aberrometria) em um modelo 3D do seu olho e simula o trajeto dos raios de luz antes de definir o tratamento. É um nível adicional de personalização.

Ray tracing serve para corrigir miopia, astigmatismo e hipermetropia?

Sim. A tecnologia está aprovada e em uso para esses três erros refrativos. Os melhores dados disponíveis hoje são para miopia e astigmatismo miópico, mas hipermetropia também é tratada.

Quem tem grau alto pode fazer?

Depende da avaliação individual. O ray tracing não muda os limites anatômicos da cirurgia — continua sendo necessário ter espessura e formato de córnea adequados. A tecnologia melhora a qualidade do planejamento, mas não substitui os critérios de segurança da cirurgia refrativa.

O resultado dura para sempre?

O efeito da cirurgia é estável a longo prazo na grande maioria dos casos. Pode haver pequena variação de grau ao longo dos anos, especialmente em pacientes com miopias mais altas ou tendência natural à progressão. Acompanhamento oftalmológico regular continua sendo essencial mesmo depois da cirurgia.

Por que a cirurgia com ray tracing custa mais?

Porque envolve um equipamento adicional para o exame pré-operatório integrado, um software de planejamento computacional mais sofisticado e licenças específicas. O custo extra reflete a tecnologia envolvida no planejamento, não uma cirurgia diferente.

Ray tracing já está disponível no Brasil?

Sim. A tecnologia chegou ao Brasil em 2025 e já está sendo oferecida em centros selecionados, inclusive em São Paulo.


Referências

  1. He G, et al. Ray-tracing–guided myopic LASIK: real-world clinical outcomes. J Cataract Refract Surg. 2023;49(11):1140-1146. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37595291/
  2. Luo L, Fan Y, Wang X, et al. Clinical Outcomes of Ray Tracing-Guided LASIK for Myopic Astigmatism Correction. Photodiagnosis Photodyn Ther. 2025;55:104715. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1572100026001377
  3. Sitto M, Moshirfar M, Crook T, Hoopes P. Comparison of U.S. FDA Premarket Approval Studies Between Ray Tracing-Guided LASIK with InnovEyes Sightmap Versus Topography-Guided LASIK. Ophthalmol Ther. 2025;14(12):2983-3005. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12579080/
  4. Mrochen M, et al. Ray tracing: the Future of Refractive Surgery. Cataract & Refractive Surgery Today. 2011. https://crstoday.com/articles/2011-aug/ray-tracing-the-future-of-refractive-surgery
  5. Arba Mosquera S, Verma S. Wavefront ablation profiles in refractive surgery: description, results, and limitations. J Refract Surg. 2012;28(2):149-156. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22373035/
  6. Ray-tracing-guided FS-LASIK: Refractive outcomes, Visual Quality and Patient Satisfaction. Clin Ophthalmol. 2026. https://www.dovepress.com/ray-tracing-guided-femtosecond-lasik-refractive-outcomes-visual-qualit-peer-reviewed-fulltext-article-OPTH

Dr. Hallim Féres Neto

Formado em Medicina pela Faculdade de Medicina do ABC em 2004, Residência em Oftalmologia pela Faculdade de Medicina do ABC em 2007 e especialização em Gestão em Saúde no Insper em 2015. É Cirurgião de segmento anterior no Hospital Israelita Albert Einstein desde 2010 Possui especialidade em: Cirurgia Refrativa, Catarata, Ceratocone e Adaptação de Lente de Contato

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