dr hallim feres neto cirurgia
dr hallim feres neto cirurgia presbiopia 01

Para entender a técnica de forma geral, veja também a página principal sobre a cirurgia Presbyond em São Paulo

O que é presbiopia (“vista cansada”)?

A presbiopia é uma condição natural do envelhecimento dos olhos, que costuma surgir a partir dos 40 e poucos anos. Nessa fase da vida começamos a perceber dificuldade para focar objetos próximos, como ler mensagens no celular ou enxergar letras pequenas. É o famoso “braço curto”, ou “vista cansada”.

Tradicionalmente, o tratamento para presbiopia envolve o uso de óculos de leitura ou óculos multifocais. Outras alternativas disponíveis são as lentes de contato, que podem ser multifocais ou com monovisão (um olho para longe e outro para perto).

Além dessas opções, hoje existem cirurgias a laser para presbiopia capazes de restaurar a visão de perto e reduzir – ou até eliminar – a necessidade de óculos. A técnica que mais utilizo (e que escolhi para meus próprios olhos, e não me arrependo) é o PRESBYOND Laser Blended Vision, da Zeiss.

Hoje em dia, praticamente todos os fabricantes de equipamentos de cirurgia refrativa têm a sua plataforma para tratar presbiopia. Eu pesquisei e fui atrás dos resultados reais de todas.

Neste artigo, quero comparar o Presbyond com outra opção mais usada, o READ, da Alcon WaveLight, que em algumas situações pode oferecer quase a mesma independência dos óculos.

Ambas as técnicas são em essência um LASIK com femtosegundo, como já fazemos de rotina, com a diferença em como o laser remodela a córnea. Desse modo, o tempo de recuperação delas é bem parecido com o de um FemtoLASIK: normalmente 1 ou 2 dias.

PRESBYOND: visão combinada com profundidade de foco aumentada

A técnica PRESBYOND, marca registrada da Zeiss, existe desde 2009 — o primeiro trabalho de Reinstein e colaboradores com o protocolo saiu naquele ano, no Journal of Refractive Surgery. Logo, não é nem novidade: é uma técnica testada e aprovada.

Como funciona o PRESBYOND?

  • Um dos olhos (dominante) é corrigido preferencialmente para visão de longe.
  • O outro olho (não dominante) é então ajustado para favorecer a visão de perto — uma diferença pequena, em torno de 1,00 a 1,75 dioptria nas séries publicadas.
  • A grande inovação está no ajuste especial do laser, que amplia a profundidade de foco de cada olho. Desse modo, ambos conseguem enxergar bem em mais de uma distância.

📌 Resultado esperado: visão binocular contínua de longe até perto, sem “saltos” de foco. Assim, nosso cérebro se adapta e combina as imagens dos dois olhos, promovendo uma visão natural e confortável.

Esquema do Presbyond Laser Blended Vision
Esquema de mescla da visão intermediária, mantendo a binocularidade

Benefícios do PRESBYOND

  • Boa visão em todas as distâncias. Nas séries de Reinstein, 98% a 99% dos pacientes atingiram 20/20 binocular para longe e 96% leram J2 sem óculos.
  • Alta taxa de independência dos óculos: na série australiana de 2026, com 250 olhos, 94,4% relataram melhora da função visual e menor dependência de óculos.
  • Os pacientes referem conseguir ler o celular e assistir televisão já no dia seguinte — portanto, uma recuperação bem rápida.
  • Qualidade de visão preservada. Numa revisão sistemática de 2025 com 13 estudos, o Presbyond foi a única técnica em que nenhum trabalho mostrou perda de sensibilidade ao contraste — quatro mostraram melhora e cinco, nenhuma alteração.
  • Se o resultado não ficar exatamente onde queríamos, o retoque a laser é previsível e permite ajustar o grau depois.
  • Pode ser realizado em praticamente qualquer grau: miopia, hipermetropia, astigmatismo, e mesmo em quem não tem grau nenhum para longe.

READ: perfil asférico customizado da Alcon

A técnica READ, desenvolvida pela Alcon para a plataforma WaveLight EX500, aborda a presbiopia por um caminho parecido, mas com dosagem diferente. (Se você gosta de física, aqui você pode ler uma explicação em inglês sobre a ciência por trás disso tudo, escrita pelo próprio Damien Gatinel.)

Como funciona o READ?

  • O laser aumenta a asfericidade negativa da córnea — o que os artigos chamam de nomograma Custom-Q — gerando aberração esférica negativa controlada e, com ela, mais profundidade de foco.
  • Esse ajuste é mais forte no olho não dominante, mas acontece nos dois. No estudo publicado por Gatinel e colaboradores, a mudança de asfericidade foi de ΔQ −0,61 no olho não dominante e ΔQ −0,33 no dominante.
  • Soma-se a isso uma micro-miopização do olho não dominante: naquele estudo, o grau médio ficou em −1,07 D nesse olho, enquanto o dominante ficou em +0,32 D.

📌 Um ponto que gera confusão: o READ costuma ser descrito por aí como “monovisão”. Não é. Na monovisão clássica um olho fica para longe e o outro para perto, e o cérebro alterna entre eles. No READ os dois olhos ganham profundidade de foco, e a diferença de grau entre eles é pequena. Estruturalmente, ele está muito mais perto do Presbyond do que da monovisão.

READ software laser excimer EX500
imagem da tela do Excimer Laser EX500 atualizado com a plataforma READ

Benefícios do READ

  • Bons resultados de acuidade em hipermétropes présbitas: 91% atingiram 20/20 binocular para longe e 83% leram J3 ou melhor sem óculos, aos 6 meses.
  • Boa adaptação para quem já usou lentes de contato multifocais ou monovisão.
  • Correção com alteração óptica mais discreta, o que pode ser interessante em présbitas hipermétropes no início do quadro.

Quem pode fazer cirurgia a laser para presbiopia?

As cirurgias PRESBYOND e READ são indicadas para:

  • Pessoas acima de 40 anos com presbiopia.
  • Quem deseja reduzir ou eliminar o uso de óculos de leitura.
  • Pacientes sem catarata ou outras doenças oculares significativas.

Além disso, elas também podem corrigir:

  • Miopia + presbiopia, com ou sem astigmatismo — Presbyond
  • Hipermetropia + presbiopia, com ou sem astigmatismo — ambos
  • Astigmatismo puro + presbiopia — Presbyond
  • Presbiopia isolada, em pessoas com grau praticamente neutro para longe — Presbyond

Vale registrar por que a lista do READ é mais curta: toda a evidência publicada dele até hoje é em hipermétropes présbitas, numa série de 130 olhos com 6 meses de seguimento. Não é que ele não funcione nos outros perfis — é que ainda não foi estudado neles.

Resultados e adaptação

Tanto o PRESBYOND quanto o READ apresentam altas taxas de sucesso. O que os estudos mostram, em números:

  • Independência de óculos: 94,4% dos pacientes da série de 2026 relataram menor dependência já após o primeiro tratamento. Nos 23 pilotos comerciais e militares operados com Presbyond e acompanhados por 12 meses, todos recuperaram a certificação aeromédica Classe 1 e voltaram a voar.
  • Visão de longe: 20/20 binocular em 95% a 99% dos pacientes com Presbyond, e em 91% com READ.
  • Recuperação rápida: muitas pessoas voltam às atividades normais em 1 ou 2 dias.
  • O cérebro se adapta naturalmente à nova condição visual, num período que costuma ir de alguns dias a alguns meses.

É normal que, em situações específicas (baixa iluminação ou letras muito pequenas), ainda seja útil um auxílio óptico ocasional – mas a liberdade no cotidiano é significativa.

Efeitos colaterais e riscos

Apesar de seguras, as cirurgias PRESBYOND e READ podem causar, temporariamente:

  • Olho seco leve nas primeiras semanas.
  • Halos ou reflexos noturnos, que tendem a melhorar com o tempo.
  • Diferença de foco entre os olhos, sensação que costuma desaparecer após a adaptação cerebral.
  • Possibilidade de retoque a laser. Nas séries de Presbyond, a taxa foi de 5,3% em míopes e de 12,6% a 22% em hipermétropes. Não é complicação — é um segundo ajuste —, mas o paciente precisa saber disso antes de operar.

Um ponto de honestidade que faço questão de dizer no consultório: a cirurgia a laser não é reversível. O laser remodela a córnea removendo tecido, e isso é definitivo. O que existe é a possibilidade de ajustar o resultado depois com um retoque. Por isso o teste de tolerância antes da cirurgia é tão importante — é ele que simula a diferença entre os olhos enquanto ainda dá para mudar de ideia.

PRESBYOND x READ: qual escolher?

Característica PRESBYOND (Zeiss) READ (Alcon)
Tipo de correção Microanisometropia com profundidade de foco aumentada nos dois olhos Asfericidade negativa aumentada nos dois olhos, mais forte no não dominante, com micro-miopização desse olho
Olho dominante Corrigido para longe, já com foco ampliado Corrigido para longe, com aumento discreto de asfericidade (ΔQ −0,33)
Olho não dominante Corrigido para perto e meia distância, com foco ampliado ΔQ −0,61 e grau médio de −1,07 D
Adaptação cerebral Rápida e natural; teste de tolerância feito antes da cirurgia Costuma se beneficiar de adaptação prévia com lentes de contato
Perfis já estudados Miopia, hipermetropia, astigmatismo e présbitas sem grau para longe (−8,3 a +5,8 D) Hipermetropia com presbiopia
Evidência publicada Cerca de 1.400 olhos em seis séries, de 2009 a 2026 130 olhos em uma série, com 6 meses

Conclusão

As cirurgias PRESBYOND e READ, quando bem indicadas, podem produzir resultados excelentes. São o que há de mais moderno e minimamente invasivo para correção da presbiopia. Ambas permitem uma vida com menos dependência dos óculos e, consequentemente, mais liberdade para atividades cotidianas como dirigir, trabalhar e ler.

Porém, se você leu até aqui, tenho algo a acrescentar.

O Presbyond acumula cerca de 1.400 olhos em seis séries publicadas entre 2009 e 2026, em centros diferentes, cobrindo míopes, hipermétropes e présbitas sem grau para longe. A satisfação e a independência de óculos aparecem nesses trabalhos em números — 94,4% de melhora funcional relatada, 98,8% de satisfação após retoque no grupo míope, 100% dos pilotos recertificados.

O READ, por sua vez, tem uma série publicada, de 130 olhos, com 6 meses de seguimento e apenas em hipermétropes. Os resultados de acuidade são bons e o método é elegante. Mas aquele estudo não mediu satisfação, nem sensibilidade ao contraste, nem estereopsia — então, sobre essas três coisas, ainda não dá para afirmar nada.

Não é que uma técnica seja boa e a outra ruim. É que uma foi testada muito mais vezes, em mais tipos de olho, medindo mais coisas. Foi por isso, e também vendo os resultados dos meus pacientes, que optei pelo Presbyond — tanto para mim quanto para minha esposa.

Se você tem mais de 40 anos, sente dificuldade para enxergar de perto e está buscando uma solução duradoura, vale a pena conversar com seu oftalmologista sobre essas opções. Seja qual for a técnica, a melhora na liberdade e na qualidade de vida é impressionante.

Se você se interessou, converse com seu oftalmologista, ou agende uma consulta comigo.

Perguntas frequentes

Presbyond e READ são a mesma coisa?

Não, mas são parentes próximos. Os dois são LASIK com um perfil asférico que aumenta a profundidade de foco dos dois olhos e deixa o olho não dominante levemente mais míope. A diferença está na dosagem: o Presbyond usa uma variação maior e trabalha os dois olhos de forma mais equilibrada; o READ concentra o efeito no olho não dominante e mexe menos no dominante.

O READ é uma monovisão?

Não. Na monovisão clássica um olho enxerga de longe e o outro de perto, com uma diferença grande entre eles, e o cérebro alterna. No READ os dois olhos ganham profundidade de foco e a diferença de grau é pequena — cerca de 1 dioptria no estudo publicado. É uma descrição comum na internet, mas não corresponde à técnica.

A cirurgia a laser para presbiopia é reversível?

Não. O laser remove tecido da córnea, e isso é permanente. O que existe é a possibilidade de ajustar o resultado com um retoque, se o grau não ficar onde queríamos. É justamente por não ser reversível que fazemos o teste de tolerância antes: ele simula a diferença entre os olhos enquanto ainda dá para mudar de ideia.

Vou ficar 100% livre dos óculos?

Na maior parte do dia a dia, sim: celular, computador, dirigir, televisão. Em situações específicas — letras muito pequenas, luz baixa, leitura prolongada — algumas pessoas ainda usam um óculos fraco de apoio. Nos estudos, 94,4% relataram menor dependência de óculos após o primeiro tratamento.

Quanto tempo o cérebro leva para se adaptar?

A visão útil aparece em 1 ou 2 dias. A adaptação fina, em que o cérebro passa a combinar as imagens sem que você perceba, costuma levar de algumas semanas a poucos meses. Nesse período é comum notar uma leve diferença entre os olhos, que vai deixando de incomodar.

A cirurgia piora a visão noturna?

Halos e reflexos são comuns nas primeiras semanas e tendem a diminuir. Sobre a qualidade de visão em si, a revisão sistemática de 2025 é tranquilizadora quanto ao Presbyond: entre os estudos analisados, nenhum mostrou perda de sensibilidade ao contraste, e vários mostraram melhora. No estudo com pilotos, o contraste aumentou de forma estatisticamente significativa.

Qual a chance de precisar de retoque?

Depende do seu grau de partida. Nas séries de Presbyond, foi de 5,3% em míopes e entre 12,6% e 22% em hipermétropes — a hipermetropia é sempre o cenário mais difícil para qualquer técnica corneana. O retoque é um procedimento simples, feito depois que o grau estabiliza.

Tenho catarata inicial. Posso fazer?

Não é o melhor caminho. Nenhuma técnica de córnea resolve uma catarata em formação, e operar a córnea agora significaria operar o cristalino depois de qualquer forma. Nesses casos, a conversa é sobre a cirurgia de catarata com uma lente que também corrija a presbiopia.

Existe idade limite?

Não há um número fixo. As séries publicadas incluíram pacientes de 42 a 70 anos. O que pesa mais do que a idade é a condição do cristalino: a partir de certo ponto, faz mais sentido tratar o cristalino do que a córnea.

Referências científicas

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  5. Russo A, Reinstein DZ, Filini O, et al. Visual and refractive outcomes following laser blended vision with non-linear aspheric micro-anisometropia (PRESBYOND) in myopic and hyperopic patients. J Refract Surg. 2022;38(5):288-297. doi:10.3928/1081597X-20220323-01
  6. Reinstein DZ, Ivory E, Chorley A, et al. PRESBYOND Laser Blended Vision LASIK in commercial and military pilots requiring Class 1 medical certification. J Refract Surg. 2023;39(1):6-14. doi:10.3928/1081597X-20221129-02
  7. Wierzbowska J, Pniakowska Z, Roszkowska AM. Contrast sensitivity and stereopsis outcomes following LASIK presbyopia correction based on the corneal aberration modulation or corneal multifocality induction methods: a systematic review. J Clin Med. 2025;14(3):871. doi:10.3390/jcm14030871
  8. Wong RWL, Beggs C, Marks C, Reinstein DZ, Archer TJ, van Zyl L. Assessing the visual and refractive outcomes of PRESBYOND Laser Blended Vision treatment in myopic and hyperopic presbyopic patients in Western Australia. J Refract Surg. 2026;42(5):e416-e426. doi:10.3928/1081597X-20260220-01

Dr. Hallim Féres Neto

Formado em Medicina pela Faculdade de Medicina do ABC em 2004, Residência em Oftalmologia pela Faculdade de Medicina do ABC em 2007 e especialização em Gestão em Saúde no Insper em 2015. É Cirurgião de segmento anterior no Hospital Israelita Albert Einstein desde 2010 Possui especialidade em: Cirurgia Refrativa, Catarata, Ceratocone e Adaptação de Lente de Contato