Quando um paciente na faixa dos 45 aos 60 anos me procura cansado dos óculos de perto, a conversa muitas vezes chega a uma bifurcação: corrigir a presbiopia na córnea, com laser (eu prefiro Presbyond, inclusive meus olhos foram operados assim), ou dentro do olho, trocando o cristalino por uma lente intraocular trifocal? Depois de ler os estudos e os resultados do meu dia a dia, optei na minha prática sempre que possível manter o cristalino natural (quero dizer, contanto que ele ainda não tenha catarata).
Fazer a troca do cristalino transparente (RLE, na sigla em inglês) não é errado e inclusive é respaldado pelo Conselho Federal de Medicina. As duas cirurgias funcionam. Eu tenho pacientes muito satisfeitos com ambas. E, no entanto, são procedimentos profundamente diferentes no mecanismo, no perfil de efeitos colaterais e no que significam para o futuro daquele olho.
Antes de comparar os números, um alerta: não existe estudo randomizado comparando laser versus troca de cristalino transparente. O que existe são séries e revisões de cada técnica, medindo desfechos parecidos com critérios nem sempre iguais. Por isso, ao longo do texto, indico sempre o critério usado em cada estudo.
O que cada cirurgia faz
O Presbyond é uma cirurgia a laser na córnea, evolução do LASIK. Deixa o olho dominante mais focado para longe e o não dominante com uma miopização mínima (por volta de −1,00 a −1,50 D), mas com um detalhe: o laser estica o foco de cada olho, deixando-os mais próximos e cobrindo todas as distâncias ao mesmo tempo. O cérebro combina as duas imagens, oferecendo visão nítida em todas as distâncias. E o cristalino permanece intacto.
A troca de cristalino transparente é, na prática, a cirurgia de catarata feita antes de existir catarata: o cristalino (a lente natural dentro do olho) é removido e substituído por uma lente intraocular. Utilizamos geralmente lentes trifocais, que dividem a luz em três focos — longe, intermediário e perto. É uma cirurgia definitiva: aquele olho nunca mais desenvolverá catarata, e também nunca mais mudará de foco por conta própria, porque a acomodação que restava desaparece com o cristalino.
Satisfação: alta nas duas, com um detalhe importante
Os números de satisfação são bons nos dois caminhos.
Na série australiana de Presbyond publicada em 2026 (250 olhos), 94,4% dos pacientes relataram visão melhor e menor dependência de óculos após a cirurgia [1]. Nas lentes trifocais, a série americana com a PanOptix em troca de cristalino transparente (39 pacientes, seguimento médio de 9 meses) encontrou 87% de pacientes satisfeitos ou muito satisfeitos, com 85% dizendo que fariam a cirurgia de novo e 90% que a recomendariam [2]. Com a trifocal AT LISA tri, uma série italiana (21 pacientes operados de catarata, ou seja, tinham visão ruim e portanto uma expectativa diferente) encontrou 100% de pacientes dizendo que escolheriam a mesma lente de novo [3]. A maior casuística de RLE trifocal já publicada — 5.226 pacientes operados com a RayOne Trifocal — descreve “altos níveis de satisfação”, sem detalhar o percentual no resumo [4].

O detalhe importante está em quem são os insatisfeitos. Na cirurgia a laser, a insatisfação costuma vir de resíduo refrativo — e resíduo refrativo costuma ser simples de retocar com o próprio laser. Na lente trifocal, uma parcela dos insatisfeitos não se adapta aos fenômenos ópticos da lente (halos, imagens borradas “em cera”), e a solução, quando a neuroadaptação falha, pode ser trocar a lente em nova cirurgia intraocular. Nenhuma lente precisou ser explantada na série da PanOptix [2] — mas é um cenário que existe e que o paciente precisa conhecer antes.
Visão final
Para longe, os resultados muito bons nos dois grupos, mas atenção aos critérios de cada estudo:
- Presbyond em míopes (310 olhos): 99% enxergando 20/20 binocular [5].
- Presbyond em emétropes (296 olhos): 98% em 20/20 binocular [6].
- Presbyond em hipermétropes (série de 2025, 170 olhos): 90,5% em 20/20 ou melhor [7].
- RLE com trifocal PanOptix (78 olhos): 100% em 20/25 ou melhor binocular — critério um degrau abaixo do 20/20 [2].
Se considerarmos que 20/20 é 100% de visão, 20/25 corresponde aproximadamente a 95%. Ou seja, o estudo sobre troca de lente intraocular tem um critério mais fácil de ser atingido.

Para perto, a trifocal entrega um foco de leitura “gravado” na óptica da lente: 97% dos pacientes da PanOptix liam na linha equivalente a 20/25 de perto [2]. No Presbyond, 96% dos míopes e emétropes alcançaram J2 (letra pequena de bula) [5,6]; em hipermétropes, o número cai para 81% em J2 na série original de 2009 [8] — é o grupo em que mais frequentemente é preciso retocar (12,6%, na série mais recente; nos míopes, 5,3%) [1,8].
Sensibilidade ao contraste: a diferença mais consistente
Sensibilidade ao contraste é a capacidade de distinguir tons parecidos: o degrau cinza na penumbra, ou o pedestre de roupa escura na chuva. É aqui que o mecanismo das duas cirurgias mais se separa.
O Presbyond não divide a luz: cada olho continua com um foco único, apenas com profundidade de campo aumentada. A revisão sistemática de Wierzbowska (2025) reuniu nove estudos de Presbyond com cerca de 800 olhos: cinco não encontraram mudança nenhuma na sensibilidade ao contraste e quatro encontraram melhora — nenhum estudo documentou perda [9].
A lente trifocal, por construção, divide a luz que entra no olho em três focos, logo o foco que você está usando recebe só uma parte dela. No estudo que mediu contraste com a trifocal AT LISA tri, os valores ficaram dentro da faixa de normalidade na maior parte das frequências, mas abaixo dela nas frequências baixas [3], justamente a faixa que descreve os grandes vultos em pouca luz.
Vale registrar: as duas maiores séries de RLE trifocal [2,4] não mediram sensibilidade ao contraste, portanto esse desfecho ou não foi avaliado (improvável) ou simplesmente os autores optaram por não publicar.
Halos e fenômenos visuais noturnos
Todo método de compensar presbiopia cobra algum pedágio óptico no início, e o Presbyond não é exceção: halos e ajuste da visão noturna são esperados nos primeiros meses, enquanto o cérebro aprende a usar a nova óptica. A diferença está na frequência e na origem do fenômeno.
Nas trifocais, o halo não é uma fase, e sim característica da lente, que a maioria aprende a ignorar. Na série da PanOptix, aos 9 meses de média, 67% relatavam starbursts (raios em volta das luzes), 62% ofuscamento e 51% halos; a maior parte dizia incomodar pouco, mas 41% classificavam o starburst como incômodo relevante [2]. Na comparação com lente monofocal (que não corrige perto), a revisão Cochrane estimou 3,6 vezes mais chance de halos com lentes multifocais (RR 3,58) e 41% mais ofuscamento [10]; metanálise posterior encontrou números quase idênticos [11].
Segurança: operar a córnea não é operar dentro do olho
O Presbyond é uma cirurgia extraocular: os riscos são os de uma cirurgia refrativa a Laser: olho seco temporário, necessidade de retoque (mais frequente em hipermétropes, como visto acima), complicações raras no flap. Não altera o risco de descolamento de retina do olho, não abre o globo ocular e preserva o cristalino.
A RLE é uma cirurgia intraocular, e três números merecem estar em qualquer conversa de consentimento (e de acordo com a documentação do CFM essa conversa é obrigatória, o médico precisa informar esses riscos):
- Descolamento de retina. Em pacientes operados do cristalino antes dos 61 anos, a incidência foi de 3,55% em seguimento médio de quase 4 anos — subindo para 10,2% em olhos com comprimento axial de 25 a 28,9 mm (olhos míopes); cada milímetro a mais de comprimento axial aumentou o risco em 42% [12]. No estudo clássico de alta miopia (>−12 D), o descolamento atingiu 8,1% em 7 anos, praticamente o dobro do risco basal de 2% desses olhos sem cirurgia [13]. Em míopes com cristalino transparente, numa cirurgia que não é obrigatória, e sim para melhorar a qualidade, deve-se pensar muito antes de indicar RLE.
- Opacificação de cápsula posterior. Não é complicação grave, mas é frequente: 23% dos olhos da série da PanOptix precisaram de capsulotomia YAG em menos de um ano [2]; na coorte de alta miopia, 61% em 7 anos [13].
- Retoque refrativo. Mesmo no caminho intraocular, 4% dos olhos precisaram de LASIK complementar para acertar o alvo [2].

Nenhum desses números transforma a RLE em cirurgia perigosa — a cirurgia de cristalino é uma das mais seguras da medicina. Mas são riscos de outra categoria, que o caminho corneano simplesmente não tem.
O fator que decide? O amadurecimento do cristalino
Se a troca do cristalino tem um risco maior e mais perda de contraste, por que ainda existe essa dúvida? Porque existe uma variável que ainda não levamos. em consideração: quanto o cristalino do paciente tem a oferecer e quanto ainda vai durar.
No paciente de 45 a 55 anos com cristalino transparente e saudável, trocá-lo significa descartar um tecido que ainda daria uma década ou mais de serviço, zerar a acomodação residual que ele ainda tem e antecipar os riscos intraoculares. Nesse grupo, o Presbyond funciona como ponte inteligente: resolve a presbiopia agora, não mexe dentro do olho, e não fecha nenhuma porta: quando a catarata chegar, aos 70 ou 75 anos, a cirurgia de cristalino continua disponível, inclusive com lentes premium, apenas exigindo o cuidado de calcular a lente considerando a córnea operada.
No paciente acima de 60–65 anos, ou naquele em que o cristalino já mostra sinais de desgaste (catarata incipiente, opalescência que rouba contraste), a lógica se inverte: a RLE deixa de ser “trocar um cristalino bom” e passa a ser antecipar alguns anos uma cirurgia que já está no horizonte E e aí pode resolver a presbiopia e a catarata futura num movimento só. No hipermétrope mais velho, em particular, a troca com lente trifocal é frequentemente uma excelente indicação.
Como decido no consultório
Eu tenho mais de 20 anos operando pacientes assim. Tenho pacientes operados com Laser e monovisão, com lente intraocular e monovisao, com lentes premium e mais recentemente com Presbyond. Desde que essa técnica passou a ser disponível aqui em São Paulo, em pouco tempo passou a ser a minha primeira opção (como já falei, inclusive para meus próprios olhos) é a técnica que escolhi estudar mais a fundo . Os números acima mostram o porquê: satisfação equivalente às melhores lentes, contraste preservado em todos os estudos que o mediram, e um perfil de risco que não envolve o interior do olho.
A troca de cristalino transparente é uma excelente cirurgia — no paciente certo, na hora certa. O erro não está em nenhuma das duas técnicas; está em usar uma quando a biologia pedia a outra.
Se você está nessa encruzilhada, o caminho começa com um exame completo: topografia e tomografia de córnea, avaliação do cristalino, medida do comprimento axial e mapeamento da retina. É esse conjunto (e não uma preferência minha por qualquer técnica) que diz qual cirurgia é a sua.
Perguntas frequentes
Presbyond ou troca de cristalino: qual é melhor?
Depende sobretudo da idade e do estado do cristalino. Entre os 45 e os 55 anos, com cristalino transparente e saudável, o Presbyond costuma ser a escolha mais racional, porque resolve a presbiopia sem operar dentro do olho e sem descartar um cristalino que ainda funciona. Acima dos 60–65 anos, ou quando já há catarata incipiente, a troca com lente trifocal passa a ser frequentemente também uma indicação. Não existe estudo comparando as duas técnicas diretamente.
Quem faz a troca de cristalino transparente ainda vai ter catarata?
Não. A catarata é o envelhecimento do cristalino, e a cirurgia o substitui definitivamente por uma lente artificial. É a principal vantagem estrutural desse caminho: presbiopia e catarata futura resolvidas numa única cirurgia.
Quem faz Presbyond pode operar catarata no futuro?
Sim. O Presbyond atua na córnea e não mexe dentro do olho: quando a catarata chegar, a cirurgia de cristalino continua disponível, inclusive com lentes premium. A única exigência é calcular a lente intraocular levando em conta a córnea já operada, o que hoje é rotina nos consultórios de cirurgia refrativa.
Qual das duas técnicas causa mais halos à noite?
A lente trifocal. Na série da PanOptix, metade dos pacientes (51%) relatava halos aos 9 meses [2], e a revisão Cochrane estimou 3,6 vezes mais chance de halos com lentes multifocais em relação à monofocal [10]. No Presbyond, halos e ajuste da visão noturna são esperados nos primeiros meses de neuroadaptação e tendem a diminuir com o tempo.
Qual o risco mais sério da troca de cristalino transparente?
O descolamento de retina, sobretudo em olhos míopes e longos. Em operados do cristalino antes dos 61 anos a incidência foi de 3,55%, subindo para 10,2% nos olhos com 25 a 28,9 mm de comprimento axial [12]; na alta miopia, 8,1% em 7 anos [13]. É um risco que a cirurgia a laser na córnea não tem.
O resultado do Presbyond pode ser ajustado depois?
Sim, e essa é uma vantagem prática do caminho corneano: resíduo de grau se corrige com retoque a laser. Nas séries publicadas, o retoque foi necessário em 5,3% dos míopes e em 12,6% a 22% dos hipermétropes [1,8]. Retoque não é falha da cirurgia, é parte do ajuste fino.
Referências científicas
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