dr hallim feres neto SMILE pro LASIK ou PRK qual a melhor tecnica
dr hallim feres neto SMILE pro LASIK ou PRK qual a melhor tecnica

Se você pesquisou sobre cirurgia refrativa, provavelmente já se deparou com essa dúvida: “SMILE (ou SMILE pro), LASIK ou PRK, qual é melhor?” É uma das perguntas que mais escuto no consultório. A verdade é que não existe “a melhor técnica”. Mas tem uma que é a mais adequada para o seu olho, o seu grau e a sua rotina.

As três funcionam muito bem quando bem indicadas, aliás, os estudos comparativos mostram resultados visuais muito parecidos entre elas. O que muda, e bastante, é o caminho até o resultado: como a córnea é tratada, quanto desconforto há nos primeiros dias, quanto tempo leva a recuperação e como cada olho tolera cada abordagem. Neste artigo explico como essas técnicas funcionam, o que os estudos mostram quando as comparam de verdade e como eu decido caso a caso no consultório.

As três técnicas em um minuto

PRK (ceratectomia fotorrefrativa) é a técnica mais antiga e que melhorou muito ao longo de quase 40 anos. Em uso desde o fim dos anos 1980. O laser trata a superfície da córnea depois da remoção delicada do epitélio — a “película” mais externa, que se regenera sozinha em poucos dias. Não há corte nem flap. O preço dessa simplicidade é uma recuperação mais lenta e desconfortável nos primeiros dias, enquanto o epitélio cicatriza.

LASIK é a técnica mais realizada no mundo. Cria-se uma lamela fina na córnea (o flap), que é levantada como uma página de livro; o laser corrige o grau no tecido interno e o flap é reposicionado. A visão melhora rápido, em algumas horas, E o desconforto é mínimo.

SMILE (extração de lentículo por pequena incisão) é a geração mais recente. Um laser de femtossegundo esculpe, dentro da córnea, uma mini lente (uma “lentícula”) com o formato exato do grau a corrigir, e essa lentícula é removida por uma incisão de poucos milímetros. Não há flap nem remoção do epitélio: a estrutura externa da córnea fica quase toda preservada. Existe ainda uma distinção importante dentro da própria SMILE, entre a versão original e a SMILE pro, que é importante explicar porque nem toda clínica que oferece “SMILE” trabalha com a mesma geração de equipamento.

SMILE e SMILE pro: não são iguais

A SMILE clássica é realizada com o laser VisuMax 500, plataforma que consolidou a técnica no mundo. A SMILE pro é a evolução dela, feita com o VisuMax 800 — e é a versão que utilizo no consultório. O princípio cirúrgico é o mesmo; o que muda é a precisão e a experiência do procedimento:

  • Tempo de laser: o VisuMax 800 esculpe a lentícula em cerca de 10 segundos por olho, contra quase 30 segundos da geração anterior [7]. Menos tempo de sucção significa um procedimento mais confortável e menos janela para pequenos movimentos do olho.
  • Centragem assistida: o sistema ajuda a centralizar o tratamento no eixo visual. No estudo comparativo direto, os tratamentos da SMILE pro ficaram mais bem centrados e induziram menos aberrações ópticas [7].
  • Controle de ciclotorção: o equipamento compensa a rotação natural que o olho faz quando deitamos, o que faz muita diferença na correção do astigmatismo. Inclusive, astigmatismo mais alto costuma ser uma das razões para eu preferir a SMILE pro em algumas situações.
  • Preferência dos pacientes: num estudo em que cada paciente operou um olho com cada versão, a satisfação com a experiência cirúrgica foi significativamente maior com a SMILE pro, e 80% preferiram o olho operado por ela [9].

Em segurança e resultado visual final, as duas gerações são equivalentes nos estudos [7,9]. Ou seja, a evolução está na precisão, no conforto e na fluidez do procedimento. Mas vale a pergunta na consulta: quando alguém oferece “SMILE”, é a clássica ou a pro?

O que os estudos mostram quando comparam as técnicas

Aqui vale começar pelo que talvez seja a informação mais importante deste artigo: em resultado visual, as técnicas modernas empatam.

Uma metanálise que reuniu 12 estudos comparando SMILE e LASIK de femtossegundo (1.076 olhos) não encontrou grande diferença entre as duas em nenhum dos três critérios clássicos: eficácia (visão de 20/20 sem óculos), segurança (perda de linhas de visão corrigida) e previsibilidade (grau residual dentro de ±1,00 dioptria) [1]. A revisão da Cochrane que comparou LASIK e PRK chegou a conclusão parecida: ao fim de um ano, os resultados são comparáveis, ou seja, a diferença está mais na recuperação, não no destino final [2].

Em revisões separadas, há discreta predominância do SMILE pro, mas como são estudos separados com critérios diferentes, fazer uma afirmação contundente não é possível, mas os resultados são os abaixo:

A maior revisão de resultados de LASIK moderno, com 67.893 olhos operados, encontrou 90,8% dos olhos enxergando 20/20 ou melhor sem óculos, 99,5% com 20/40 ou melhor (visão que permite dirigir sem correção) e perda de duas ou mais linhas de visão em apenas 0,61% dos olhos [3].

Com a SMILE pro, as séries publicadas mostram o mesmo padrão de excelência: num estudo comparativo com 100 olhos operados pelo VisuMax 800, 100% dos olhos atingiram visão de 20/20 ou melhor sem óculos aos 3 meses [7]; na maior série publicada até aqui, com 765 olhos de miopia com astigmatismo, 92% enxergavam 20/25 ou melhor, 97% ficaram com grau residual dentro de ±1,00 dioptria e apenas um olho (0,13%) perdeu duas ou mais linhas de visão corrigida [8].

Gráfico de barras com resultados publicados: LASIK (revisão de 67.893 olhos, 90,8% com visão 20/20) e SMILE pro (100% de 20/20 em 100 olhos; 92% de 20/25 e 97% dentro de ±1,00 D em 765 olhos)
Resultados publicados de LASIK e SMILE pro. Estudos e populações diferentes — os números não devem ser comparados diretamente entre os painéis.

Olho seco: a diferença mais consistente entre SMILE e LASIK

Se em resultado visual as técnicas empatam, no comportamento da superfície ocular há uma diferença real e bem documentada. Toda cirurgia refrativa corneana reduz temporariamente a sensibilidade da córnea, e com ela o estímulo para a produção e distribuição da lágrima. A questão é a intensidade e a duração desse efeito.

Como a SMILE não cria flap, ela secciona menos fibras nervosas da córnea. Na comparação direta, isso aparece com clareza: na mesma metanálise de 1.076 olhos, aos 6 meses os pacientes de SMILE tinham menos sintomas de olho seco (6,7 pontos a menos no questionário OSDI) e melhor sensibilidade corneana do que os de LASIK [1]. Num estudo francês que acompanhou 120 olhos, a severidade média dos sintomas aos 6 meses (numa escala de 0 a 4) foi de 0,2 no grupo SMILE contra 1,2 no grupo LASIK, e a densidade de nervos na córnea, medida por microscopia confocal, permanecia visivelmente maior nos olhos operados por SMILE [5]. Esses estudos foram feitos com a geração anterior da plataforma, mas o que protege a inervação — a ausência de flap e a incisão de poucos milímetros, é exatamente o mesmo na SMILE pro.

Gráfico de barras: severidade média de olho seco 6 meses após a cirurgia, 0,2 com SMILE contra 1,2 com LASIK, em escala de 0 a 4
Severidade de sintomas de olho seco aos 6 meses (escala 0–4), em 120 olhos pareados. Fonte: Denoyer 2015 [5].

Isso não significa que LASIK “causa olho seco” em todo mundo — na maioria dos pacientes o ressecamento é temporário e melhora ao longo dos meses. Significa que, para quem já parte de uma superfície ocular mais frágil, essa diferença pesa na escolha. Escrevi um artigo específico sobre isso: SMILE e olho seco.

Estrutura da córnea, esporte e trauma

Outra diferença estrutural: o flap do LASIK cicatriza, mas não se “solda” completamente à córnea. Em traumas importantes, existe a possibilidade rara de deslocamento, mesmo anos depois. Por isso, para quem pratica esportes de contato (lutas, por exemplo) ou trabalha em atividades com risco de trauma ocular, costumo preferir técnicas sem flap: SMILE ou PRK.

Essa lógica tem respaldo na biomecânica. Uma metanálise de 22 estudos que mediu a resistência biomecânica da córnea após cirurgia encontrou preservação significativamente maior com SMILE do que com LASIK, e resultado comparável entre SMILE e as técnicas de superfície, como a PRK [6].

Recuperação: onde as três mais se diferenciam no dia a dia

  • LASIK: visão útil em 24–48 horas, desconforto leve e passageiro. A revisão da Cochrane confirma: recuperação visual mais rápida e menos dor do que a PRK [2].
  • SMILE pro: recuperação semelhante à do LASIK na maioria dos pacientes — sem o período de cicatrização do epitélio da PRK e sem os cuidados com o flap do LASIK. A etapa do laser dura cerca de 10 segundos por olho [7], o que torna a experiência do procedimento mais confortável, nos estudos, é a versão que os próprios pacientes preferem [9].
  • PRK: os primeiros 3 a 4 dias exigem paciência: ardor, lacrimejamento e fotofobia enquanto o epitélio se regenera, com lente de contato terapêutica no olho. A visão vai clareando ao longo de semanas ou até alguns meses. O resultado final, como vimos, é equivalente [2].

Até quantos graus? E quem serve para cada técnica?

A SMILE é aprovada para miopia de −0,50 a −10,00 dioptrias (“graus”), com astigmatismo de até −5,00 dioptrias, SMILEpro pode também corrigir hipermetropia até +7,00 dioptrias [4].

LASIK e PRK cobrem miopia, hipermetropia e astigmatismo, e o limite de cada olho depende menos da tabela e mais da córnea: espessura, curvatura e regularidade na topografia. Córneas mais finas, por exemplo, tendem a favorecer a PRK, que não gasta tecido criando flap. E há situações em que nenhuma técnica a laser é indicada — suspeita de ceratocone é a mais importante delas, e é exatamente isso que os exames pré-operatórios investigam.

Um resumo honesto

SMILE proLASIKPRK
Corta flap?Não (incisão de poucos mm)SimNão (remove o epitélio)
CorrigeMiopia, hipermetropia e astigmatismoMiopia, hipermetropia e astigmatismoMiopia, hipermetropia e astigmatismo
Recuperação visualRápidaRápidaGradual (semanas)
Desconforto inicialLeveLeveModerado por 3–4 dias
Olho seco temporárioMenor [1,5]Maior [1,5]Intermediário
Esporte de contatoBoa opçãoEvitar (flap)Boa opção
Resultado visual finalEquivalente [1,2]Equivalente [1,2]Equivalente [1,2]

Como eu decido no consultório

Na prática, a escolha raramente é uma disputa entre as três, o exame costuma apontar o caminho. A avaliação pré-operatória que faço inclui refração completa, topografia e tomografia da córnea (para medir espessura e afastar ceratocone), avaliação da superfície ocular e do filme lacrimal, e uma conversa sobre rotina: profissão, esportes, uso de telas, expectativas.

É desse conjunto que sai a indicação. Um paciente de 28 anos com miopia média, córnea saudável e rotina de escritório provavelmente terá bom resultado com qualquer uma das três, e aí discutimos recuperação e preferências e decidimos juntos. Um lutador de Muay-Thai com tendência a olho seco é outra conversa. Uma córnea fina com topografia limítrofe, outra ainda.

Se você tem miopia, astigmatismo ou hipermetropia e quer saber qual técnica faz sentido para o seu caso, o primeiro passo é esse: uma avaliação completa. Agende uma consulta, os exames respondem a maior parte das dúvidas que a internet não consegue responder.

Perguntas frequentes

Qual das três técnicas é a melhor?

Nenhuma é “a melhor” para todos. Os estudos comparativos mostram resultados visuais equivalentes entre SMILE, LASIK e PRK [1,2]; a escolha certa depende da córnea, do grau, da superfície ocular e do estilo de vida de cada paciente.

A cirurgia dói?

Durante o procedimento, não — usamos colírio anestésico. No pós-operatório, LASIK e SMILE causam desconforto leve por algumas horas; a PRK exige mais paciência, com dor, ardor e fotofobia nos primeiros 3 a 4 dias, controlados com medicação e lente terapêutica [2].

SMILE corrige astigmatismo?

Sim. É possível corrigir astigmatismo até −5,00 dioptrias associado à miopia ou hipermetropia, e a maior série publicada da SMILE pro foi feita justamente em olhos com miopia e astigmatismo [8]. A SMILEpro ainda compensa automaticamente a rotação do olho durante o procedimento, o que ajuda na precisão da correção do astigmatismo [7].

O que muda da SMILE para a SMILE pro?

A técnica é a mesma; muda o laser. A SMILE pro usa o VisuMax 800, que esculpe a lentícula em cerca de 10 segundos (contra quase 30 da geração anterior) e adiciona centragem assistida e controle de ciclotorção (astigmatismo). Os estudos comparativos mostram tratamentos mais bem centrados, menos aberrações induzidas e maior satisfação dos pacientes com a versão pro, com a mesma segurança [7-9]. É a versão que utilizo no consultório.

E hipermetropia, a SMILE corrige?

SMILEpro corrige hipermetropia, e somos um dos poucos lugares no Brasil a já oferecer essa correção na nossa rotina.

Tenho olho seco. Posso operar?

Depende do grau do ressecamento — por isso a avaliação da superfície ocular antes da cirurgia é obrigatória. Quando a cirurgia é possível, a SMILE tende a ser a técnica que menos agride a inervação da córnea e a que menos provoca sintomas de olho seco nos primeiros meses [1,5].

Pratico esporte de contato. Qual técnica devo escolher?

Em geral, uma técnica sem flap (SMILE ou PRK). O flap do LASIK tem risco raro, mas real, de deslocamento em traumas, e a córnea operada por SMILE preserva mais resistência biomecânica do que a operada por LASIK [6].

O grau pode voltar depois da cirurgia?

Pode haver regressão parcial em uma minoria dos casos, principalmente em graus altos — por isso preferimos sempre operar com grau estável há pelo menos um ano. Quando necessário, um retoque pode ser programado. Perda importante de visão corrigida é rara nas três técnicas [1,3,4].

Fiz 45 anos e comecei a afastar o celular para ler. A cirurgia resolve isso?

Não. A causa da presbiopia (vista cansada) vem do envelhecimento do cristalino, não da córnea, e aparece mesmo em quem já operou miopia. Para ela existe um planejamento a laser específico, o Presbyond, que uso nos pacientes acima dos 40 anos.

Referências

  1. Shen Z, Shi K, Yu Y, Yu X, Lin Y, Yao K. Small Incision Lenticule Extraction (SMILE) versus Femtosecond Laser-Assisted In Situ Keratomileusis (FS-LASIK) for Myopia: A Systematic Review and Meta-Analysis. PLoS One. 2016;11(7):e0158176. doi:10.1371/journal.pone.0158176
  2. Shortt AJ, Allan BD, Evans JR. Laser-assisted in-situ keratomileusis (LASIK) versus photorefractive keratectomy (PRK) for myopia. Cochrane Database Syst Rev. 2013;(1):CD005135. doi:10.1002/14651858.CD005135.pub3
  3. Sandoval HP, Donnenfeld ED, Kohnen T, Lindstrom RL, Potvin R, Tremblay DM, et al. Modern laser in situ keratomileusis outcomes. J Cataract Refract Surg. 2016;42(8):1224-1234. doi:10.1016/j.jcrs.2016.07.012
  4. Carl Zeiss Meditec. ZEISS SMILE pro — laser vision correction (faixas de tratamento). Disponível em: zeiss.com — SMILE pro
  5. Denoyer A, Landman E, Trinh L, Faure JF, Auclin F, Baudouin C. Dry eye disease after refractive surgery: comparative outcomes of small incision lenticule extraction versus LASIK. Ophthalmology. 2015;122(4):669-676. doi:10.1016/j.ophtha.2014.10.004
  6. Guo H, Hosseini-Moghaddam SM, Hodge W. Corneal biomechanical properties after SMILE versus FLEX, LASIK, LASEK, or PRK: a systematic review and meta-analysis. BMC Ophthalmol. 2019;19(1):167. doi:10.1186/s12886-019-1165-3
  7. Kim BK, Chung YT. Comparison of clinical outcomes following small incision lenticule extraction performed with the VisuMax 800 versus VisuMax 500 femtosecond laser. Sci Rep. 2025;15:25484. doi:10.1038/s41598-025-98041-9
  8. Cung HS, Tran LHT, Tran TN. Three-month outcomes of SMILE Pro with the VISUMAX 800 for myopic astigmatism in a large population. Clin Ophthalmol. 2025;19:417-425. doi:10.2147/OPTH.S502915
  9. Ganesh S, Brar S, Swamy DT. Comparison of clinical outcomes and patient satisfaction following SMILE performed with the VisuMax 800 in one eye and VisuMax 500 in the contralateral eye. J Refract Surg. 2025;41(1):e14-e21. doi:10.3928/1081597X-20241113-02

Dr. Hallim Féres Neto

Formado em Medicina pela Faculdade de Medicina do ABC em 2004, Residência em Oftalmologia pela Faculdade de Medicina do ABC em 2007 e especialização em Gestão em Saúde no Insper em 2015. É Cirurgião de segmento anterior no Hospital Israelita Albert Einstein desde 2010 Possui especialidade em: Cirurgia Refrativa, Catarata, Ceratocone e Adaptação de Lente de Contato