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SMILE e olho seco: a técnica resseca menos que o LASIK?

Para quem não tem tempo: SMILEpro tende a preservar melhor os nervos da córnea do que o femto-LASIK e, nos primeiros meses, costuma alterar menos a estabilidade do filme lacrimal. Isso pode significar uma recuperação mais confortável para quem já tem tendência ao ressecamento. Mas é importante colocar a vantagem no tamanho certo: todas as técnicas de cirurgia ocular podem causar olho seco temporário.

Por que a cirurgia refrativa pode causar olho seco?

A córnea tem uma rede muito densa de nervos. Além de permitir a sensibilidade, essas fibras participam do reflexo de piscar e ajudam a regular a produção lacrimal.

Quando fazemos uma cirurgia refrativa na córnea, parte dessa inervação é temporariamente afetada. Durante a recuperação, o olho pode piscar menos, perceber menos a necessidade de lubrificação e apresentar um filme lacrimal mais instável. É por isso que alguns pacientes sentem:

  • ardor ou sensação de areia;
  • visão que oscila e melhora ao piscar;
  • desconforto com vento, ar-condicionado ou uso prolongado de telas;
  • necessidade maior de colírios lubrificantes nas primeiras semanas de pós operatório.

Essa alteração costuma ser transitória. A intensidade e a duração, porém, variam conforme a técnica escolhida e a condição da superfície ocular antes da cirurgia.

O que muda entre SMILE e LASIK?

No femto-LASIK, criamos um flap: um retalho fino da córnea que é levantado para o excimer laser remodelar o tecido logo abaixo. O corte acompanha quase toda a circunferência do flap e interrompe uma parcela maior das fibras nervosas superficiais.

Na SMILEpro, não há flap. O laser de femtossegundo forma uma pequena lentícula no interior da córnea, que é retirada por uma incisão de apenas 2 a 4 mm. Como a maior parte da superfície permanece intacta, mais fibras nervosas são preservadas.

Comparação entre SMILE e LASIK mostrando a pequena incisão da SMILE, o flap do LASIK e a diferença na preservação dos nervos da córnea
Na SMILE, a lentícula é retirada por uma pequena incisão. No LASIK, a criação do flap interrompe mais fibras nervosas superficiais da córnea.

Essa diferença anatômica explica por que a SMILE costuma apresentar melhores medidas de sensibilidade corneana e estabilidade lacrimal no começo da recuperação. Se quiser entender melhor cada procedimento, veja também LASIK vs. SMILE e o passo a passo da técnica SMILE.

A SMILE realmente causa menos olho seco?

SMILEpro tende a preservar melhor a superfície ocular, principalmente nos primeiros meses, mas isso não significa que todos os pacientes sentirão uma diferença evidente.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 reuniu 18 estudos que compararam SMILE (e outros tipos de extração de lentícula) e femto-LASIK. No acompanhamento até 6 meses , SMILE apresentou mais tempo antes de a lágrima começar a evaporar, e melhor preservação da sensibilidade corneana. Já a diferença no OSDI (questionário que mede o que o paciente realmente sente) foi pequena e não atingiu significância estatística.

Um estudo bem legal selecionou 40 pacientes, submetidos a uma técnica diferente em cada olho (um olho femto-LASIK e o outro SMILE). O LASIK reduziu mais a sensibilidade corneana nos meses iniciais, mas a diferença desapareceu aos 12 meses. Apesar disso, os pacientes não relataram diferença de sintomas de olho seco entre um olho e o outro, e o OSDI melhorou nos dois grupos ao longo do ano.

Resumindo, a vantagem biológica do SMILE existe e é consistente, sobretudo na fase inicial. Mas não necessariamente essa vantagem é percebida por todas as pessoas. Para quem não tem olho seco antes de operar, provavelmente essa diferença não vai ser mesmo significativa. Já para quem já tem os olhos mais secos, intolerância à lentes de contato ou coça muito os olhos, essa vantagem é bem mais relevante.

Quem pode se beneficiar mais dessa característica?

A preservação nervosa pode pesar a favor da SMILE em quem:

  • já apresenta sintomas leves de olho seco;
  • usa computador por muitas horas ou trabalha em ambiente climatizado;
  • tem histórico de intolerância a lentes de contato;
  • apresenta maior risco de desconforto ocular no pós-operatório.

Mas o olho seco é apenas uma parte da decisão. Grau, espessura e formato da córnea, idade, tamanho da pupila, qualidade óptica e estilo de vida também entram no planejamento.

Quem tem olho seco pode fazer SMILE?

Geralmente sim, desde que o olho seco esteja diagnosticado e controlado antes da cirurgia. O fato de a SMILE interferir menos na inervação não transforma uma superfície ocular inflamada em uma superfície pronta para operar.

Na avaliação pré-operatória, observamos os sintomas, o padrão das piscadas, o tempo de ruptura do filme lacrimal, a coloração da córnea, o volume de lágrima e o funcionamento das glândulas de Meibômio. Dependendo do caso, também podem ser necessários questionários como o OSDI, teste de Schirmer, meibografia ou outros exames de superfície ocular.

Blefarite ativa, disfunção importante das glândulas de Meibômio, alergia ocular descompensada ou olho seco moderado a grave são motivos para tratar primeiro e repetir as medidas depois. Além de melhorar o conforto, isso aumenta a confiabilidade dos exames usados no planejamento da cirurgia.

Se quiser aprofundar esse cuidado, veja também meu artigo sobre olhos secos, irritados e conjuntivite alérgica.

Como costuma ser a recuperação?

Nos primeiros dias a recuperação é bem parecida para qualquer técnica: é comum perceber algum ardor, sensação de corpo estranho ou oscilação da visão. O uso de colírios lubrificantes melhora muitos esses sintomas. Em quem não tem olho seco de base, na verdade a recuperação é bem parecida em ambas as técnicas. Já em quem já tem algum sintoma, a menor quantidade de fibras nervosas viáveis no pós LASIK pode não ser suficiente para manter o conforto e a qualidade do filme lacrimal. A sensibilidade e a rede nervosa da córnea continuam se recuperando por mais tempo, e estudos mostram que a diferença entre SMILE e LASIK tende a diminuir ao longo do primeiro ano.

O prazo não é igual para todos. Quem já tinha olho seco, disfunção de glândulas de Meibômio, alergia ou grande exposição a telas e ar-condicionado pode precisar de acompanhamento e tratamento por mais tempo. Para saber o que esperar em cada fase, consulte o guia SMILE — tudo sobre o pós-operatório.

mulher no trabalho pingando colírio
Em qualuqer técnica, é comum o uso de colírios lubrificantes durante as primeiras semanas de pós operatório.

Resumindo

SMILE tende a provocar menos alteração dos nervos da córnea e do filme lacrimal do que o femto-LASIK, sobretudo no início da recuperação. Essa é uma vantagem especialmente em pacientes com maior preocupação com o ressecamento.

Ao mesmo tempo, a técnica não elimina o risco de olho seco, e os sintomas percebidos nem sempre são diferentes entre os procedimentos. O melhor resultado começa antes da cirurgia: com uma avaliação cuidadosa, tratamento da superfície ocular quando necessário e escolha individualizada da técnica.

Se você tem olho seco e quer saber se pode fazer cirurgia refrativa, o ideal é avaliar a córnea e a superfície ocular antes de decidir. Assim conseguimos escolher o procedimento com mais segurança — e não apenas pelo nome da técnica.

Perguntas frequentes

A SMILE não causa olho seco?

Como todas as cirurgias de córnea, pode causar, sim. A diferença é que, em média, a SMILE preserva mais nervos da córnea e apresenta recuperação mais rápida de alguns parâmetros objetivos do filme lacrimal do que o femto-LASIK.

SMILE é sempre melhor para quem tem olho seco?

Sim. SMILE preserva mais as terminações nervosas, mostrando melhor estabilidade do filme lacrimal no pós operatório.

Quanto tempo dura o ressecamento depois da SMILE?

Na maior parte dos pacientes, o desconforto melhora nas primeiras semanas ou nos primeiros meses. A recuperação da sensibilidade corneana continua ao longo do tempo. Casos com olho seco prévio podem exigir tratamento mais prolongado.

Vou precisar usar colírio lubrificante para sempre?

Na maioria das pessoas, não. O uso costuma ser mais frequente no início e vai diminuindo conforme a superfície ocular se recupera. Quem já tinha olho seco pode continuar precisando de tratamento, independentemente da cirurgia.

Referências

  1. Chen KY, Chan HC, Chan CM. How Effective is Keratorefractive Lenticule Extraction Surgery (KLEx) in Reducing Dry Eye Outcomes Compared to LASIK? A Systematic Review and Meta-analysis. J Refract Surg. 2025;41(8):e839-e854. DOI: 10.3928/1081597X-20250506-07.
  2. Ma KK, Manche EE. Corneal Sensitivity and Patient-Reported Dry Eye Symptoms in a Prospective Randomized Contralateral-Eye Trial Comparing LASIK and SMILE. Am J Ophthalmol. 2022;241:248-253. DOI: 10.1016/j.ajo.2022.05.010.
  3. Wong AHY, Cheung RKY, Kua WN, et al. Dry Eyes After SMILE. Asia Pac J Ophthalmol (Phila). 2019;8(5):397-405. DOI: 10.1097/01.APO.0000580136.80338.d0.
  4. Kobashi H, Kamiya K, Shimizu K. Dry Eye After Small Incision Lenticule Extraction and Femtosecond Laser-Assisted LASIK: Meta-Analysis. Cornea. 2017;36(1):85-91. DOI: 10.1097/ICO.0000000000000999.

Dr. Hallim Féres Neto

Formado em Medicina pela Faculdade de Medicina do ABC em 2004, Residência em Oftalmologia pela Faculdade de Medicina do ABC em 2007 e especialização em Gestão em Saúde no Insper em 2015. É Cirurgião de segmento anterior no Hospital Israelita Albert Einstein desde 2010 Possui especialidade em: Cirurgia Refrativa, Catarata, Ceratocone e Adaptação de Lente de Contato

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