Quando operar a catarata? Resumo para quem não tem tempo:
- A ideia de “esperar a catarata amadurecer” é de outra época. Antigamente a catarata era retirada inteira, por um corte grande, e uma catarata mais dura até ajudava.
- Hoje a cirurgia é diferente: a catarata é “quebrada” com ultrassom e aspirada por um corte de 2 milímetros, sem pontos. Por isso a lógica mudou: quanto mais mole a catarata, menos ultrassom, menos tempo de cirurgia e recuperação mais rápida.
- Catarata muito dura aumenta o risco de complicações e cansa mais a córnea.
- O momento de operar não é quando a catarata está “no ponto”. É quando ela começa a atrapalhar a sua vida: dirigir à noite, ler, trabalhar.
- Esperar demais tem custo: mais tempo enxergando mal, mais risco de quedas e uma cirurgia mais difícil lá na frente.
“Doutor, ainda não está na hora, né? Minha mãe operou quando a catarata estava madura. Melhor esperar.”
Escuto uma frase parecida com essa quase toda semana no consultório. E entendo de onde ela vem: durante muitos anos, foi exatamente isso que nós oftalmologistas dissemos aos pacientes. Espere. Deixe amadurecer.
Naquela época, o conselho estava certo. Mas a cirurgia evoluiu muito e a técnica hoje em dia é diferente.
Então, quando operar catarata hoje? Sempre falo que até certo ponto, a indicação é mais do paciente do que do médico, mas quando ela começa a atrapalhar o seu dia a dia geralmente é a hora de operar, e de preferência antes de ela ficar dura.
De onde veio a ideia de “esperar a catarata amadurecer”
A catarata é a opacificação do cristalino, a lente natural que fica dentro do olho. Com o passar dos anos, essa lente vai ficando amarelada, turva e, o que pouca gente sabe, cada vez mais dura. “Amadurecer” quer dizer justamente isso: a catarata ficou densa, escura, e a pessoa já enxerga muito pouco.

Na cirurgia antiga (e foi assim que eu ainda aprendi primeiro na faculdade), abríamos o olho com um corte grande, de mais de um centímetro, e tirávamos o cristalino inteiro, de uma vez só. Depois a córnea era fechada com vários pontos. Nesse tipo de cirurgia, uma catarata dura ajudava: ela saía em bloco, sem se despedaçar. Em compensação, a recuperação levava semanas, os pontos deixavam astigmatismo e o risco só compensava quando a visão já estava bem ruim. Fazia todo o sentido esperar.
Naquela época, a resposta para “quando operar a catarata” era simples: o mais tarde possível.
A facoemulsificação mudou quando operar a catarata
Isso começou a mudar em 1967, quando um médico americano, Charles Kelman, inventou a facoemulsificação.1 O nome é complicado, mas a ideia é simples: em vez de tirar o cristalino inteiro, uma ponteira de ultrassom “quebra” a catarata em pedacinhos dentro do olho e aspira tudo. Hoje essa é a cirurgia padrão no mundo todo. O corte tem cerca de 2 milímetros, fecha sozinho e não precisa de pontos.

Por que hoje “quanto mais mole, melhor”
Com a facoemulsificação, a lógica virou de cabeça para baixo, e com ela a resposta para quando operar a catarata. Como agora a catarata é quebrada dentro do olho, a dureza dela passou a ser o principal obstáculo. Uma catarata inicial, ainda mole, sai com pouco ultrassom, em poucos minutos, quase sem manipulação. Já uma catarata madura pede muito mais energia, mais tempo e mais manobras para quebrar o núcleo.
Por que isso importa? Por causa da córnea, a “janela” transparente na frente do olho. Na parte de dentro dela existe uma camada de células que a mantém limpa e transparente, e essas células não se regeneram: as que se perdem, não voltam. Toda cirurgia de catarata gasta um pouco dessas células. E quanto mais tempo de ultrassom, mais a gente perde dessas células.
O que os estudos mostram sobre a catarata dura
Um estudo japonês acompanhou quase 900 olhos operados e foi procurar o que mais desgastava essas células da córnea. E perceberam que a dureza da catarata foi o fator mais importante de todos.3 Outros trabalhos chegaram à mesma conclusão: quanto mais dura a catarata, mais ultrassom é preciso e mais células da córnea se perdem.4,5

Mais risco de complicação e recuperação mais lenta
E não é só a córnea. O maior levantamento de cirurgias de catarata do mundo, feito na Inglaterra com quase um milhão de operações, mostrou que a catarata madura ou muito escura mais que dobra o risco da complicação mais temida durante a cirurgia, o rompimento da cápsula posterior, justamente a estrutura que segura a lente dentro do olho.6 Além disso, em cataratas muito densas a córnea leva mais tempo para desinchar, e a visão demora mais para clarear, às vezes meses.12
Na prática, o que eu vejo no centro cirúrgico é simples de resumir. Catarata mole: menos ultrassom, cirurgia mais curta, córnea transparente no dia seguinte, paciente enxergando bem mais cedo. Catarata dura: mais tempo de cirurgia, mais esforço, mais risco e recuperação mais lenta.
Então, quando operar a catarata?
Se não é preciso esperar amadurecer, também não faz sentido operar qualquer catarata pequena que apareça no exame. O que define o momento não é o “tamanho” da catarata, e sim o quanto ela atrapalha a sua vida. É assim que as principais diretrizes do mundo orientam: a Academia Americana de Oftalmologia diz que a hora de operar é quando a visão deixa de atender às necessidades da pessoa,7 e a diretriz britânica é ainda mais direta: não se deve exigir um mínimo de perda de visão para indicar a cirurgia.8
Sinais de que é hora de operar a catarata
No consultório, a pergunta “quando operar a catarata?” vira perguntas bem práticas:
- Dirigir à noite ficou desconfortável? Faróis que ofuscam, halos ao redor das luzes e dificuldade para ler placas costumam ser os primeiros sinais, muito antes de a visão cair na tabela do exame.
- Ler e trabalhar pedem mais luz do que antes? As coisas perdem contraste, como se houvesse um vidro embaçado na frente, e limpar os óculos não resolve.
- O grau dos óculos mudou várias vezes em pouco tempo? A catarata costuma mudar o grau. Trocar as lentes ajuda por alguns meses, e depois o problema volta. Ou pode chegar o momento que mesmo trocando de óculos, a visão não fica satisfatória.
- As cores parecem mais amareladas ou apagadas? É um sinal clássico. Muita gente só percebe depois de operar o primeiro olho e comparar.
- Existe um motivo médico? Em alguns olhos, a catarata muito volumosa aumenta a pressão do olho, ou impede que eu examine bem a retina. Nesses casos a indicação vem da doença, não do desconforto.
| Sinais de que está na hora | O que não é motivo para esperar |
|---|---|
| A catarata atrapalha alguma atividade que importa para você | “Ainda enxergo alguma coisa” |
| Ofuscamento e dificuldade para dirigir à noite | A visão ainda não chegou em um número específico no exame |
| Trocas frequentes de grau sem melhora que dure | A idade (não existe idade mínima nem máxima) |
| Cores apagadas, pouco contraste, precisar de mais luz | Esperar “amadurecer” para a cirurgia ficar mais fácil |
| Motivo médico: pressão do olho, retina que precisa ser examinada | Medo de “gastar” a cirurgia cedo demais: ela é feita uma vez só e não precisa ser refeita |
O que se perde esperando demais
Quando o assunto é quando operar a catarata, esperar não é de graça. Uma grande revisão canadense juntou 27 estudos sobre o tempo de espera pela cirurgia e encontrou uma diferença clara: quem esperou mais de seis meses perdeu mais visão, teve pior qualidade de vida e caiu mais do que quem operou em poucas semanas.9
Quedas, fraturas e demência: por que operar catarata sem esperar
O dado sobre quedas merece atenção, porque em pessoas mais velhas uma queda pode mudar o rumo da vida. Um estudo inglês sorteou 306 mulheres com mais de 70 anos e catarata: metade operou o primeiro olho em cerca de um mês, a outra metade entrou numa fila de um ano. No grupo que operou logo, as quedas caíram um terço e as fraturas caíram pela metade. E não foi só isso: essas pacientes ficaram mais ativas, mais confiantes e menos ansiosas.10
Há ainda a relação com o cérebro. Um estudo americano acompanhou mais de 3 mil idosos por décadas e viu que quem operou a catarata teve cerca de 30% menos risco de desenvolver demência.11 Falei disso em detalhe no artigo sobre cirurgia de catarata e proteção contra demência.
Por fim, existe o custo da própria catarata madura. Quando o cristalino fica muito opaco e inchado, ele pode “entupir” a drenagem do olho e provocar um aumento súbito de pressão. E, quanto mais o tempo passa, mais duro o núcleo fica, com os riscos que mostrei acima.2,6 Uma cirurgia que seria de rotina aos 68 anos pode virar uma cirurgia complicada aos 74.
E operar cedo demais?
O outro lado também precisa ser dito. Se quando operar a catarata não é “quando amadurecer”, também não é “assim que aparecer”. Uma catarata discreta, encontrada num exame de rotina, sem nenhum sintoma, não é motivo para operar. Nesses casos eu explico o que encontrei, anoto e reavalio a cada seis a doze meses. A cirurgia é muito segura, mas é uma cirurgia. A hora certa é quando o benefício fica claro para você.
Hoje em dia, vemos um aumento grande de cirurgias de catarata em pacientes mais jovens, por volta dos 50 anos de idade. Alguma pessoas optam por fazer a troca do cristalino mais cedo, com o objetivo de tirar os óculos. Existe outro jeito de fazer isso, que eu (e a literatura) julgamos mais seguro quando não há catarata atrapalhando a visão. Expliquei esse raciocínio nos artigos sobre PRESBYOND e troca do cristalino e sobre o que acontece quando a catarata chega depois do PRESBYOND.
Como eu decido o momento no consultório
- Uma conversa sobre a sua rotina. Antes de qualquer exame, quero saber o que a catarata está tirando de você: direção, leitura, trabalho, esporte, telas. É essa resposta que define quando operar a catarata, não o aparelho.
- Exame completo, com dilatação da pupila. Avalio o tipo e a dureza da catarata, a pressão do olho e a retina, porque o fundo do olho precisa estar saudável para a cirurgia entregar o resultado esperado. Explico o motivo em por que os oftalmologistas dilatam os olhos.
- Teste de ofuscamento. Muita gente enxerga bem na sala escura do consultório e não consegue dirigir à noite. Um exame simples, com uma fonte de luz, reproduz o que acontece na rua.
- Contagem das células da córnea. Antes de operar, conto as células daquela camada que mantém a córnea transparente. Se a reserva é menor, é mais um motivo para não deixar a catarata endurecer.
- Planejamento da lente. Medidas do olho e uma conversa sobre o que você espera enxergar sem óculos depois da cirurgia. Reuni as dúvidas mais comuns em o que perguntar ao seu oftalmologista sobre lente intraocular.
Com essas informações, decidimos juntos. O meu papel é mostrar o que a cirurgia pode entregar agora e o que muda se esperarmos. A escolha do momento é sua.
Quando operar catarata? Perguntas rápidas
Não. Essa ideia vem da cirurgia antiga, em que o cristalino era tirado inteiro por um corte grande. Na cirurgia de hoje, a catarata é quebrada com ultrassom e aspirada por um corte de 2 milímetros. Quanto mais mole ela estiver, menos ultrassom, menos tempo de cirurgia e recuperação mais rápida. Catarata madura aumenta o risco de complicações.
Não. As diretrizes americana e britânica orientam que a decisão seja baseada no quanto a catarata atrapalha a visão e a vida da pessoa, e não em um número do exame.
Pode fazer. Esperas maiores que seis meses estão ligadas a mais perda de visão, pior qualidade de vida e mais quedas. Em idosos, operar o primeiro olho reduziu as quedas em um terço e as fraturas pela metade em um estudo. Além disso, a catarata endurece com o tempo e a cirurgia fica mais difícil.
Não existe idade mínima nem máxima. O que define é o quanto a catarata atrapalha e as condições do olho. Pacientes com mais de 90 anos operam com segurança quando bem avaliados, e pessoas na faixa dos 50 podem ter indicação quando a catarata inicial já incomoda.
Com a cirurgia de hoje, sem pontos, a maioria das pessoas enxerga bem em poucos dias e volta à rotina em cerca de uma semana, usando os colírios. Cataratas muito duras tendem a demorar mais, porque a córnea leva mais tempo para desinchar.
Em resumo
Então, quando operar a catarata? Não quando ela “amadurece”, e sim quando começa a atrapalhar a sua vida. A cirurgia de hoje é mais segura, mais rápida e recupera melhor justamente quando a catarata ainda está mole. Esperar demais significa mais ultrassom, mais tempo de cirurgia, mais risco, e meses ou anos enxergando pior do que o necessário.
Se dirigir à noite ficou difícil, se você precisa de mais luz para ler ou se o grau dos óculos não para de mudar, vale uma avaliação completa. Você pode agendar uma consulta e conversamos sobre o momento certo para o seu caso.
Referências
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- Bourne RRA, Minassian DC, Dart JKG, et al. Effect of cataract surgery on the corneal endothelium: modern phacoemulsification compared with extracapsular cataract surgery. Ophthalmology. 2004;111(4):679-685. Acessar
- Hayashi K, Hayashi H, Nakao F, Hayashi F. Risk factors for corneal endothelial injury during phacoemulsification. Journal of Cataract and Refractive Surgery. 1996;22(8):1079-1084. Acessar
- Mahdy MA, Eid MZ, Mohammed MA, Hafez A, Bhatia J. Relationship between endothelial cell loss and microcoaxial phacoemulsification parameters in noncomplicated cataract surgery. Clinical Ophthalmology. 2012;6:503-510. Acessar
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