Lente intraocular: o que perguntar ao seu oftalmologista antes da cirurgia de catarata — Dr. Hallim Feres Neto
lente intraocular o que perguntar capa

Lente intraocular: resumo para quem não tem tempo

  • Na cirurgia de catarata, o cristalino embaçado é trocado por uma lente intraocular artificial. Ela fica dentro do olho para sempre, e por isso a escolha merece uma boa conversa.
  • Não existe “a melhor lente”. Existe a lente que combina com a sua vida: quanto de óculos você aceita usar, se dirige muito à noite, quanto tempo passa no computador, se você tem astigmatismo ou olho seco.
  • As perguntas certas na consulta são poucas: quais tipos existem e quais servem para você: “Eu tenho astigmatismo? Vou ficar sem óculos? Vou ver halos? Já fiz laser nos olhos, o que muda? E o que acontece se eu não me adaptar?”
  • A lente é só uma parte do resultado. O que pesa mesmo é o planejamento: exames bem feitos, olho seco tratado antes das medidas e um cirurgião que conheça as suas expectativas.

Às vezes escuto de pacientes algo como: “Doutor, qual é a melhor lente?”

Entendo a curiosidade e preocupação, afinal lente intraocular vai ficar dentro do olho pelo resto da vida, e há muita propaganda em cima dela. A minha resposta costuma decepcionar um pouco no começo: não existe a melhor lente. Existe a lente que combina com a sua rotina e com o seu olho. E, para chegar nela, a consulta precisa ser uma conversa de mão dupla.

Escrevi um outro artigo para ajudar o paciente a se preparar pra essa conversa. São as perguntas que eu gostaria que todo paciente me fizesse antes de decidir. Se você ainda está na dúvida sobre o momento da cirurgia, comece pelo texto sobre quando operar a catarata; aqui o assunto é a lente.

O que é a lente intraocular e por que a escolha importa

O cristalino é a lente natural que temos dentro do olho. A catarata é o embaçamento dele. Na cirurgia, nós retiramos o cristalino embaçado e colocamos no lugar uma lente intraocular artificial transparente. Ela tem o grau definido para o seu olho a partir de exames, e não precisa de manutenção nem de troca com o passar dos anos.

cristalino transparente x cristalino com catarata
cristalino transparente x cristalino com catarata

O que muda de uma lente para outra é o tipo de foco que ela entrega. Por exemplo, algumas focam só uma distância, outras ampliam o alcance, outras corrigem também o astigmatismo. Cada desenho tem um preço óptico: quanto mais a lente tenta fazer, mais ela pede em troca. É por isso que a escolha não é somente técnica mas também muito pessoal.

Pergunta 1: quais tipos de lente intraocular existem e qual faz sentido para mim?

Primeiro, peça ao seu oftalmologista para explicar as opções em linguagem simples. Em resumo, são quatro famílias:

  • Monofocal. Foca uma distância só, normalmente o longe. É a lente mais previsível e com a melhor qualidade de imagem. A contrapartida é o óculos de perto para ler e usar o celular.
  • Foco estendido (EDOF). Alonga o foco de longe até a meia distância (computador, painel do carro, prateleira do mercado). Dá mais liberdade que a monofocal com poucos halos, mas para letra miúda costuma pedir um óculos de leitura.
  • Trifocal (multifocal). Tem três focos: longe, meio e perto. É a lente que mais reduz a dependência de óculos. Em troca, é a que mais provoca halos e ofuscamento à noite, principalmente nos primeiros meses.
  • Tórica. Não é um tipo de foco, é um recurso: corrige o astigmatismo. Ou seja, existe versão tórica de monofocal, de foco estendido e de trifocal.
Lente intraocular: comparação simples entre monofocal, foco estendido e trifocal, o que cada uma entrega e o que pede em troca
Cada tipo de lente intraocular entrega algo e pede algo em troca. A escolha depende da sua rotina, não de qual é “a mais moderna”.

Pergunta 2: eu tenho astigmatismo? Isso muda a lente intraocular?

Sim, muda bastante. O astigmatismo é uma pequena diferença de curvatura da córnea, e ele não desaparece com a cirurgia de catarata. Portanto, se ele não for corrigido, a visão de longe fica embaçada mesmo com a lente nova. Uma revisão que juntou 13 estudos mostrou que a lente tórica dá visão de longe melhor sem óculos e o dobro de chance de dispensar os óculos para longe, sem aumentar complicações.1 Então, pergunte quanto de astigmatismo você tem e se a lente vai corrigir isso.

Pergunta 3: vou ficar sem óculos?

Essa é a pergunta mais importante. Com a monofocal, a regra é usar óculos de perto. Com a trifocal, a maioria das pessoas fica livre dos óculos para quase tudo: a revisão da Cochrane, com 20 estudos, encontrou uma redução importante na dependência de óculos, e a visão de longe foi tão boa quanto a da monofocal.2 Já o foco estendido fica no meio do caminho: entre trifocal e EDOF, a de longe é igual, o computador é parecido e a de perto é melhor na trifocal.3,4

O que eu digo no consultório: “ficar sem óculos” quase nunca significa “nunca mais colocar um óculos”. Significa fazer o dia a dia sem eles e, talvez, pegar um óculos de leitura para bula de remédio ou pouca luz. Assim, quem entende isso antes da cirurgia raramente se decepciona depois.

Pergunta 4: vou ver halos à noite? Eu dirijo muito

Toda lente que divide o foco, como a trifocal, gera algum halo ao redor das luzes à noite. Nos estudos, quem recebeu lente multifocal teve cerca de três vezes mais halos do que quem recebeu monofocal.2 Felizmente, na maioria das pessoas isso diminui bastante com o tempo, porque o cérebro aprende a ignorar o halo, um processo chamado neuroadaptação. Mas ele não é igual para todo mundo.

Por isso eu pergunto sobre a rotina antes de sugerir uma lente. Quem dirige muito à noite, trabalha com precisão visual ou é muito sensível a detalhes tende a ficar mais feliz com uma monofocal ou um foco estendido. Quem prefere liberdade dos óculos e aceita um período de adaptação costuma se dar bem com a trifocal. Ou seja, não há resposta errada: há resposta que combina ou não com você.

Pergunta 5: já fiz cirurgia a laser nos olhos. Isso interfere na lente intraocular?

Sim, interfere no cálculo da lente. O laser (LASIK, PRK ou SMILE) muda a curvatura da córnea, e as fórmulas comuns de cálculo erram mais nessas córneas. No entanto, existem fórmulas específicas para olhos operados, que hoje conseguem bons resultados, mas com um pouco menos de precisão do que em olhos nunca operados.5,6 Se esse é o seu caso, avise o cirurgião e leve os exames antigos, se tiver. E vale conversar sobre o tipo de lente: em córneas operadas, muitas vezes uma lente mais simples preserva melhor a qualidade da imagem. Falei disso em grau que voltou depois da cirurgia a laser e em PRESBYOND em quem já fez cirurgia refrativa.

Pergunta 6: meus olhos são secos. Isso importa para a lente intraocular?

Importa bem mais do que parece. Todas as medidas para calcular a lente são feitas na superfície da córnea, e um olho seco deixa essa superfície irregular. Inclusive, um estudo mostrou que, em pacientes com lágrima alterada, as medidas variavam de um dia para o outro o suficiente para mudar o cálculo da lente.7 Por isso, quando encontramos um paciente com olho seco, geralmente precisamos tratar primeiro o olho seco e só depois faer os exames definitivos (ou então, mudar a indicação da lente para uma lente que aceite a maior chace de erro residual).

Pergunta 7: que exames vocês fazem para escolher a lente intraocular?

Uma boa escolha de lente intraocular nasce dos exames, não do catálogo. No meu consultório, o planejamento inclui:

  1. Biometria óptica. Mede o comprimento do olho e a curvatura da córnea com precisão de frações de milímetro. É a base do cálculo do grau da lente.
  2. Topografia / tomografia da córnea. Mostram o astigmatismo em detalhe e se a córnea é regular o bastante para uma lente trifocal.
  3. OCT da mácula. Um exame de imagem da retina central. Se houver alguma doença ali, a lente multifocal deixa de ser boa ideia, porque ela depende de uma retina saudável para funcionar bem.
  4. Avaliação da superfície ocular. Olho seco tratado antes das medidas, como expliquei acima.
  5. Contagem das células da córnea e tamanho da pupila. Detalhes que ajudam a prever como o olho vai se comportar com cada desenho de lente.

Pergunta 8: e se eu não me adaptar à lente intraocular?

A boa notícia é que a insatisfação com lentes multifocais é muito incomum e, na maioria das vezes, tem causa tratável: grau residual, olho seco ou uma película que se forma atrás da lente meses depois (a chamada opacificação da cápsula, resolvida com um laser rápido no consultório). Em estudo realizado apenas com pacientes insatisfeitos, mais de 80% melhoraram com esses tratamentos simples e só 7% precisaram trocar a lente.8 Ou seja, a troca existe e funciona, mas é a exceção.9

De todo modo, o que evita chegar nesse ponto é a escolha bem feita antes: expectativa alinhada, exames completos e uma lente coerente com a sua rotina.

Pergunta 9: o que está incluído no valor?

Quando estamos desembolsando um valor elevado para uma lente premium, vale perguntar o que mais está incluso no pacote, afinal essas lentes merecem um acompanhamento mais próximo do cirurgião durante a recuperação. Pergunte sobre eventual grau residual, se está incluído no valor. Desse modo, quando isso fica claro desde o início, não há surpresas depois. E desconfie de uma escolha feita só pelo preço, para mais ou para menos: a lente mais cara não é automaticamente a melhor para você, e a mais barata pode custar a liberdade que você queria.

Pergunta 10: quem vai operar, e como decide a lente intraocular?

Afinal, a lente é um insumo. Na prática, o resultado depende de quem mede, calcula, escolhe e opera. Por isso, vale perguntar quem fará a cirurgia, com que frequência opera catarata, que tecnologia usa e, principalmente, como ele decide a lente para cada paciente. Eu recebo visitas de fornecedores frequentes, oferencendo pacotes de lentes, que barateariam o custo delas para mim e para os pacientes. Mas em compensação, me deixaria preso a um fornecedor. Prefiro pagar mais caro e ter a liberdade de realmente escolher o que é melhor para o paciente, do que ter que encaixar o paciente no planejamento financeiro do consultório.

E tenho certeza que os pacientes também preferem.

Como eu conduzo essa conversa no consultório

Eu gosto de passar bastante tempo nessa etapa. Primeiro, ouço: o que você faz no dia a dia, o que mais te incomoda hoje, o quanto os óculos atrapalham. Em seguida, examino e faço as medidas, com o olho seco tratado antes. Só então trago as opções, com o que cada uma entrega e o que cobra em troca. No fim, a decisão é nossa, em conjunto, mas a última palavra é sua, porque é você quem vai viver com a lente.

Lente intraocular: perguntas rápidas

Qual é a melhor lente intraocular?

Não existe a melhor lente para todo mundo. A monofocal dá a melhor qualidade de imagem e pede óculos de perto; a trifocal dá mais liberdade dos óculos e pede um período de adaptação aos halos; o foco estendido fica no meio. No fim, a escolha certa depende da sua rotina, do astigmatismo, da saúde da retina e das suas expectativas.

A lente intraocular precisa ser trocada com o tempo?

Não. A lente intraocular é feita para durar a vida toda e não precisa de manutenção. O que pode acontecer, meses ou anos depois, é uma película atrás da lente que embaça a visão, resolvida com um laser rápido no consultório.

Vou ficar sem óculos depois da cirurgia de catarata?

Depende da lente. Com a monofocal, você usa óculos de perto. Com a trifocal, a maioria das pessoas faz quase tudo sem óculos e às vezes usa um de leitura para letra muito miúda. Já no foco estendido, o computador e o celular ficam confortáveis, e a leitura fina pode pedir óculos.

Quem tem astigmatismo pode colocar lente intraocular?

Pode, e deve conversar sobre a lente tórica, que corrige o astigmatismo na própria cirurgia. Caso contrário, a visão de longe fica embaçada mesmo com a lente nova.

Já fiz LASIK ou PRK. Posso colocar lente trifocal?

Às vezes sim, às vezes não. A córnea operada muda o cálculo da lente e pode reduzir a qualidade de imagem das lentes que dividem o foco. Portanto, é uma decisão caso a caso, feita com exames e com os registros da cirurgia antiga, quando existem.

Em resumo

A escolha da lente intraocular não é uma compra, é uma decisão médica compartilhada. Por isso, leve as perguntas deste artigo para a consulta, conte a sua rotina com sinceridade e desconfie de respostas prontas. Em resumo, uma boa conversa antes da cirurgia é o que transforma uma lente qualquer na lente certa para você.

Se você quer conversar sobre o seu caso, pode agendar uma consulta. Eu explico as opções com calma e decidimos juntos.

Referências

  1. Kessel L, Andresen J, Tendal B, Erngaard D, Flesner P, Hjortdal J. Toric intraocular lenses in the correction of astigmatism during cataract surgery: a systematic review and meta-analysis. Ophthalmology. 2016;123(2):275-286. Acessar
  2. de Silva SR, Evans JR, Kirthi V, Ziaei M, Leyland M. Multifocal versus monofocal intraocular lenses after cataract extraction. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2016;12:CD003169. Acessar
  3. Tavassoli S, Ziaei H, Yadegarfar ME, et al. Trifocal versus extended depth of focus (EDOF) intraocular lenses after cataract extraction. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2024;7:CD014891. Acessar
  4. Karam M, Alkhowaiter N, Alkhabbaz A, et al. Extended depth of focus versus trifocal for intraocular lens implantation: an updated systematic review and meta-analysis. American Journal of Ophthalmology. 2023;251:52-70. Acessar
  5. Lanza M, Ruggiero A, Ha J, Simonelli F, Kane JX. Accuracy of formulas for intraocular lens power calculation after myopic refractive surgery. Journal of Refractive Surgery. 2022;38(7):443-449. Acessar
  6. Ferguson TJ, Downes RA, Randleman JB. IOL power calculations after LASIK or PRK: Barrett True-K biometer-only calculation strategy yields equivalent outcomes as a multiple formula approach. Journal of Cataract and Refractive Surgery. 2022;48(7):784-789. Acessar
  7. Epitropoulos AT, Matossian C, Berdy GJ, Malhotra RP, Potvin R. Effect of tear osmolarity on repeatability of keratometry for cataract surgery planning. Journal of Cataract and Refractive Surgery. 2015;41(8):1672-1677. Acessar
  8. Woodward MA, Randleman JB, Stulting RD. Dissatisfaction after multifocal intraocular lens implantation. Journal of Cataract and Refractive Surgery. 2009;35(6):992-997. Acessar
  9. Al-Shymali O, Cantó-Cerdán M, Alió Del Barrio JL, McAlinden C, Yebana P, Alio JL. Managing dissatisfaction after multifocal intraocular lens implantation through lens exchange using monofocal or alternative multifocal IOLs. Acta Ophthalmologica. 2024;102(7):e1040-e1049. Acessar

Dr. Hallim Féres Neto

Formado em Medicina pela Faculdade de Medicina do ABC em 2004, Residência em Oftalmologia pela Faculdade de Medicina do ABC em 2007 e especialização em Gestão em Saúde no Insper em 2015. É Cirurgião de segmento anterior no Hospital Israelita Albert Einstein desde 2010 Possui especialidade em: Cirurgia Refrativa, Catarata, Ceratocone e Adaptação de Lente de Contato