SMILE para hipermetropia: resumo para quem não tem tempo
- Até pouco tempo, a SMILE corrigia só miopia e astigmatismo. Desde 2024, a SMILE pro, feita no laser VisuMax 800, também corrige hipermetropia, até cerca de +7 graus.
- A mudança está no formato do tecido retirado. Na miopia, a lentícula é mais grossa no centro. Na hipermetropia, ela tem formato de anel: mais fina no centro e mais grossa ao redor, o que deixa a córnea mais curva.
- A SMILE pro para hipermetropia faz mais sentido até por volta dos 40 anos. Depois disso, com a vista cansada chegando, o PRESBYOND costuma ser a melhor escolha.
Desde que surgiu, a SMILE corrigia apenas miopia e astigmatismo, e quem tinha hipermetropia precisava partir para o LASIK ou para o PRK. Porém, isso mudou em setembro de 2024, quando a Zeiss recebeu a aprovação europeia para tratar hipermetropia com a SMILE pro. Além disso, foi a primeira vez que uma técnica de extração de lentícula recebeu essa indicação.
Fomos o primeiro serviço da América Latina a fazer a SMILE pro para hipermetropia, e hoje somos um dos poucos no Brasil a oferecê-la na rotina. Neste artigo explico o que muda em relação à SMILE para miopia, o que os estudos mostram em comparação ao LASIK e, principalmente, para quem ela faz sentido.
Hipermetropia: o olho que faz força para enxergar
Na hipermetropia, o olho é um pouco “curto” para o poder de foco que tem. Ou seja, a imagem se forma atrás da retina, e não em cima dela. Para compensar, o olho faz força o tempo todo com o cristalino, a lente natural que ajusta o foco. É interessante que essas pessoas muitas vezes enxergam bem, mas sentem mais “cansaço” para enxergar, e quanto mais perto, mais cansa.
Quando a pessoa é jovem, essa compensação funciona tão bem que muita gente nem sabe que tem hipermetropia. Em vez disso, o que aparece são sinais indiretos: cansaço visual, dor de cabeça no fim do dia, olhos ardendo depois de ler ou de ficar no computador. Com a idade, porém, o cristalino vai endurecendo e perde a capacidade de compensar. É por isso que quem tem hipermetropia sente a vista cansada antes dos amigos, e muitas vezes passa a enxergar mal também de longe.
Por que a hipermetropia sempre foi o grau mais difícil para o laser
Para corrigir miopia, o laser deixa o centro da córnea mais plano. Já para corrigir hipermetropia, é o contrário: o centro precisa ficar mais curvo. E como não dá para “acrescentar” tecido, o jeito é retirar tecido ao redor do centro, e não no centro.
Por isso, a tarefa é mais delicada. A área útil do tratamento tende a ficar menor, a centralização precisa ser praticamente perfeita e a córnea tem mais tendência a “reagir” nos meses seguintes. Nós cirurgiões refrativos sempre tratamos a hipermetropia com mais cuidado do que a miopia por esses motivos. Um estudo que comparou a SMILE para hipermetropia com o LASIK mostrou que a área efetivamente tratada pela SMILE foi maior do que a de um LASIK de zona parecida, com uma alteração de qualidade óptica semelhante à de um LASIK de zona maior.1
Isso é relevante pois quanto maior a área tratada, teoricamente mais estável é o tratamento. E o tratamento da hipermetropia naturalmente tende a regredir mais. Ou seja, se conseguimos uma área tratada maior, também devemos conseguir mais estabilidade no grau.
Como a SMILE pro corrige a hipermetropia
A ideia da SMILE é a mesma nos dois casos. Um laser de femtossegundo desenha, dentro da córnea, uma pequena lâmina de tecido, a lentícula. Depois, essa lentícula é retirada por uma microincisão de poucos milímetros, sem criar o flap do LASIK.
O que muda, na prática, é o formato. Na miopia, a lentícula é como uma lente de aumento: mais grossa no centro e fina nas bordas. Na hipermetropia, por outro lado, ela tem formato de anel, fina no centro e mais grossa ao redor. Quando esse anel sai, a periferia da córnea “afunda” um pouco e o centro fica mais curvo, exatamente o que o olho hipermétrope precisa.

SMILE ou SMILE pro? A técnica é a mesma, o que muda é o laser. A SMILE pro é feita no VisuMax 800, que desenha a lentícula em menos de 10 segundos, ajuda a centralizar o tratamento e compensa a rotação do olho. É justamente a SMILE pro que tem a aprovação europeia para hipermetropia, desde 2024.
Na hipermetropia, em que a centralização é ainda mais importante, isso pesa: um estudo coreano com o VisuMax 800 mostrou tratamentos muito bem centrados, e confirmou que quanto maior o descentramento, maior a perda de qualidade óptica.2
O que os estudos mostram sobre a SMILE para hipermetropia
O maior estudo publicado até hoje acompanhou 374 olhos de 199 pacientes, operados em vários países, com hipermetropia de até +6 graus e astigmatismo de até 5 graus.3 Depois de um ano:
- 81% dos olhos ficaram a menos de meio grau do planejado, e 93% a menos de um grau.
- Entre os pacientes que queriam ficar sem grau, 69% enxergavam 20/20 sem óculos e 88% enxergavam 20/25 ou melhor.
- Apenas 1,2% dos olhos perderam duas linhas ou mais da melhor visão com óculos.
- A sensibilidade ao contraste, que mede a qualidade da visão em pouca luz, não piorou.
Outro estudo, com graus bem altos (média de +5,6), mostrou que o resultado se manteve estável entre o terceiro mês e o primeiro ano, com variação média de apenas 0,06 grau.4
Os dados de longo prazo são mais recentes do que os da SMILE para miopia. Um estudo chinês que acompanhou um grupo pequeno por quatro anos mostrou que a camada superficial da córnea se acomoda e fica estável já no primeiro mês, e que 72% dos olhos seguiam a menos de um grau do planejado depois de quatro anos.5 É um bom resultado, mas mostra que a hipermetropia continua sendo um pouco menos previsível do que a miopia, com qualquer técnica.
E a vantagem de não ter flap?
Ela continua existindo. Sem flap, não há o risco de ele se deslocar numa pancada, e por isso a SMILE é uma ótima escolha para quem pratica esportes de contato. Além disso, a microincisão corta menos nervos da córnea, e nos estudos com miopia a SMILE resseca menos o olho do que o LASIK, como contei no artigo sobre SMILE e olho seco.
Até quantos graus a SMILE corrige hipermetropia?
A indicação da Zeiss vai até cerca de +7 graus, e o grande estudo que citei incluiu olhos com até +6 graus de hipermetropia e até 5 graus de astigmatismo.3 No entanto, o limite de cada olho depende menos da tabela e mais da córnea de cada pessoa. Como a correção deixa o centro mais curvo, a córnea não pode terminar curva demais, senão a qualidade da visão cai. Assim, espessura, curvatura e regularidade são medidas nos exames de topografia e tomografia, e são eles que dizem até onde é seguro ir. Expliquei essa lógica também em SMILE pro, LASIK ou PRK.
Quem é candidato à SMILE para hipermetropia
Em seguida, entra a parte que eu considero mais importante. Por causa da relação entre hipermetropia e vista cansada, a idade pesa muito na escolha:
| Perfil | Caminho mais indicado |
|---|---|
| Até por volta dos 40 anos, com hipermetropia estável e córnea adequada | SMILE pro para hipermetropia |
| A partir dos 40 e poucos anos, com a vista cansada começando | PRESBYOND, que trata longe e perto |
| Catarata que já atrapalha a visão | Cirurgia de catarata, com a lente planejada para o seu grau |
| Córnea que ficaria curva demais, ou grau acima do limite | Outras alternativas, avaliadas caso a caso |
Por que essa divisão? Se eu corrijo só o longe de um hipermétrope de 46 anos, ele fica ótimo por pouco tempo e logo volta a precisar de óculos para ler. Nesse momento, o PRESBYOND resolve as duas coisas juntas, e o resultado dura muitos anos, como mostrei no artigo sobre quanto tempo dura o PRESBYOND. E, quando já existe catarata atrapalhando, o caminho é outro: a própria cirurgia de catarata corrige o grau, e expliquei quando operar a catarata em outro artigo.
Como é a recuperação
Em primeiro lugar, a SMILE pro leva poucos minutos por olho, com anestesia em colírio. A recuperação é parecida com a da SMILE para miopia: a maioria das pessoas volta às atividades do dia a dia em 1 a 2 dias, e os cuidados estão no artigo sobre o pós-operatório da SMILE.
Ainda assim, há uma diferença que vale saber: na hipermetropia, a nitidez final pode levar algumas semanas para se firmar, enquanto a superfície da córnea se acomoda ao novo formato. No estudo de quatro anos, essa acomodação estava completa no primeiro mês.5 Se, anos depois, a visão mudar, a conversa é a mesma que tive no artigo sobre quando o grau volta depois da cirurgia a laser: primeiro descobrir a causa.
SMILE para hipermetropia: perguntas rápidas
Sim. Desde 2024, a SMILE pro, feita no laser VisuMax 800, tem aprovação europeia para tratar hipermetropia com ou sem astigmatismo, até 7 graus. Antes disso, a SMILE corrigia apenas miopia e astigmatismo.
A técnica é a mesma, o que muda é o equipamento A SMILE pro é feita no VisuMax 800, que desenha a lentícula em menos de 10 segundos, ajuda a centralizar o tratamento e compensa a rotação do olho. É justamente a SMILE pro que tem a aprovação europeia para hipermetropia, desde 2024.
A indicação vai até +7 graus, mas o limite real de cada olho depende da córnea. Espessura e curvatura precisam permitir a correção com segurança, e isso só os exames da avaliação mostram.
Os resultados de visão são comparáveis, mas SMILE tende a apresentar estabilidade maior. A SMILE não tem flap, o que é uma vantagem para quem pratica esportes de contato, e costuma ressecar menos o olho. A escolha depende da córnea, do grau e do estilo de vida de cada pessoa.
Com o passar dos anos o olho continua envelhecendo, e a vista cansada vai chegar de qualquer forma, mas isso é diferente de a correção perder o efeito.
Em resumo
A SMILE para hipermetropia é uma novidade real. Ela leva para quem enxerga mal de perto as vantagens que a SMILE já oferecia à miopia: sem flap, com microincisão e recuperação rápida, e com resultados comparáveis aos do LASIK. Em geral, ela funciona melhor em quem tem até por volta de 40 anos e córnea adequada. Depois disso, com a vista cansada chegando, o PRESBYOND costuma ser a resposta mais completa.
Se você tem hipermetropia e sempre ouviu que a SMILE não era para você, vale refazer essa conversa. Saiba mais sobre a cirurgia SMILE ou, se preferir, agende uma consulta: os exames mostram qual caminho faz sentido para os seus olhos.
Referências
- Reinstein DZ, Pradhan KR, Carp GI, et al. Small Incision Lenticule Extraction (SMILE) for Hyperopia: Optical Zone Diameter and Spherical Aberration Induction. Journal of Refractive Surgery. 2017;33(6):370-376. Acessar
- Chung HY, Chung YT, Kim BK, You IC. Early Clinical Outcome of Hyperopic Small Incision Lenticule Extraction (SMILE) Using the VisuMax 800 in South Korea: A Pilot Study. Korean Journal of Ophthalmology. 2026;40(3):280-291. Acessar
- Reinstein DZ, Sekundo W, Archer TJ, et al. SMILE for Hyperopia With and Without Astigmatism: Results of a Prospective Multicenter 12-Month Study. Journal of Refractive Surgery. 2022;38(12):760-769. Acessar
- Pradhan KR, Reinstein DZ, Carp GI, et al. Small Incision Lenticule Extraction (SMILE) for Hyperopia: 12-Month Refractive and Visual Outcomes. Journal of Refractive Surgery. 2019;35(7):442-450. Acessar
- Fu D, Zhang L, Shang J, et al. Corneal Epithelial Remodeling After Hyperopic SMILE: A 4-Year Study. Cornea. 2025;44(9):1084-1090. Acessar


