Lente ICL: resumo para quem não tem tempo
- A ICL é uma lente implantada dentro do olho, entre a íris e o cristalino. Ela corrige o grau sem tirar nenhum tecido da córnea e sem retirar o cristalino natural.
- É a principal alternativa para quem não pode fazer laser: grau muito alto, córnea fina ou com formato que não permite o laser com segurança, e olho seco importante.
- Em qualidade de visão, os estudos mostram nitidez e contraste iguais ou melhores que os do laser, principalmente nos graus altos.
- A cirurgia leva poucos minutos por olho, com anestesia em colírio. A maioria das pessoas volta ao trabalho em 2 a 3 dias.
- É reversível: se um dia for preciso, a lente pode ser retirada. Por outro lado, exige retorno anual para acompanhar o olho por dentro.
Ouviu que não pode fazer laser? Isso não significa ficar de óculos para sempre. Eu faço SMILE pro, FemtoLASIK, PRK e implante de ICL, e na avaliação vejo qual delas é a mais segura para o seu olho. Fale comigo pelo WhatsApp.
Quando o laser não é a melhor opção
“Já me disseram que eu não posso operar. Será que é verdade? Vou ter que usar óculos a vida toda?”
Normalmente quem diz isso fez uma avaliação para cirurgia a laser e ouviu que não era candidato. A cirurgia refrativa é um dos procedimentos mais seguros da atualidade justamente porque os critérios de segurança são bem rígidos. Por isso mesmo, essa frase aparece no consultório com mais frequência do que se imagina.
O que muita gente não sabe é que “não poder fazer laser” não é o mesmo que “não poder operar”.
Toda cirurgia a laser, seja SMILE pro, LASIK ou PRK, corrige o grau mudando o formato da córnea, a lente transparente na frente do olho. Para isso, o laser precisa afinar um pouco essa lente, e quanto maior o grau, mais é preciso afinar. É aí que aparecem os limites:
- Grau muito alto. Acima de 8 a 10 graus de miopia, a quantidade de córnea que o laser teria que retirar costuma passar do que é seguro, e a qualidade da visão também tende a cair.
- Córnea fina. Mesmo com grau moderado, uma córnea mais fina pode não ter espessura suficiente para o laser.
- Córnea com formato irregular ou sinais de fragilidade. Nesses casos, tirar tecido pode enfraquecer a córnea, e o laser deixa de ser uma opção segura.
- Olho seco importante. Toda cirurgia na córnea reduz por um tempo a sensibilidade dela, e quem já parte de um olho muito seco pode piorar.
Para essas pessoas existe o implante de lente fácica, ou ICL. Em vez de esculpir a córnea, ela acrescenta uma lente dentro do olho, como se fosse uma lente de contato que fica do lado de dentro. A córnea fica intacta.
O que é a lente ICL e como ela funciona
ICL vem do inglês Implantable Collamer Lens, lente implantável feita de Collamer, um material macio e muito compatível com o olho. Ela é dobrada, entra por uma microincisão de cerca de 3 milímetros e se abre sozinha atrás da íris, a parte colorida do olho, apoiada na frente do cristalino. Por isso ninguém vê a lente, nem você sente que ela está lá.
Dois detalhes fazem diferença:
- O cristalino natural continua no lugar. Diferente da cirurgia de catarata, a ICL não retira nada. Ela soma a correção que falta ao olho. Para quem ainda é jovem, isso preserva a capacidade natural de focar de perto.
- A versão atual tem um microfuro central. As lentes modernas têm um orifício minúsculo no centro, que deixa o líquido de dentro do olho circular normalmente. Antes, era preciso fazer um pequeno furo na íris com laser antes da cirurgia para evitar aumento da pressão. Isso não é mais necessário.

Até quantos graus a ICL corrige
A ICL foi pensada justamente para os graus altos. Nos Estados Unidos, a FDA aprovou a versão EVO para miopia de 3 a 20 graus, com astigmatismo de até 4 graus na versão tórica, e em 2026 ampliou a faixa de idade para 21 a 60 anos [1]. Mais de um milhão de lentes EVO já foram implantadas no mundo.
Na prática, além do grau, três medidas decidem se a ICL é possível:
- Espaço dentro do olho. A lente precisa de uma câmara anterior, o espaço entre a córnea e a íris, de pelo menos 3 milímetros.
- Células da córnea. A camada mais interna da córnea, o endotélio, precisa ter células suficientes, porque elas não se renovam.
- Grau estável. O ideal é que o grau não tenha mudado mais que meio grau no último ano.
Cada lente é escolhida sob medida, a partir do tamanho do olho. Esse cálculo é a parte mais importante da cirurgia: é ele que garante a distância certa entre a ICL e o cristalino, o que nós chamamos de vault.
Qualidade da visão: lente ICL ou laser, o que dizem os estudos
Quem está entre essas duas opções costuma ter essa preocupação, e a verdade é que, em nitidez e contraste, a ICL se sai igual ou melhor que o laser, principalmente nos graus altos. Ou seja, não é uma “segunda opção”, e sim uma opção diferente.
- Nitidez e distorções finas. Toda cirurgia na córnea cria pequenas imperfeições ópticas, as chamadas aberrações, que crescem com o grau corrigido. Como a ICL não mexe na córnea, ela induz menos aberrações. Uma meta-análise de 2026, com 50 estudos e mais de 5 mil olhos, comparou oito técnicas e colocou a ICL em primeiro lugar, à frente de SMILE, LASIK e PRK [2].
- Contraste. Numa meta-análise com 1.036 olhos de miopia alta, quem recebeu ICL teve melhor sensibilidade ao contraste, a capacidade de enxergar detalhes em pouca luz, do que quem fez SMILE. Também ganhou mais linhas na tabela de visão e relatou menos incômodos visuais no questionário [3].
- Halos. Aqui está a contrapartida. Halos em volta das luzes à noite são mais frequentes com a ICL: numa revisão, o risco foi cerca de 80% maior que com SMILE [4]. Num estudo que acompanhou pacientes por 5 anos, 94% dos operados com ICL notavam algum halo, contra 65% dos operados com laser. Ainda assim, a satisfação foi idêntica nos dois grupos, 9,1 de 10 [5]. Na maioria das pessoas o halo é discreto (e costuma ser um só por olho, causado pelo furinho que a lente tem no centro), e o cérebro se acostuma nos primeiros meses.
- Longo prazo. Num estudo de 7 anos em que cada paciente fez ICL num olho e SMILE no outro, as duas técnicas continuaram seguras, e o olho com ICL teve melhor qualidade óptica [6].
Em resumo: para graus baixos e moderados, o laser entrega uma visão excelente e é a minha primeira escolha. Afinal, ainda é um procedimento menos invasivo. Conforme o grau sobe, a vantagem óptica da ICL fica mais evidente.

Riscos da lente ICL: o que você precisa saber
A ICL é uma cirurgia dentro do olho, e por isso os riscos são de outra natureza que os do laser. A boa notícia é que eles são raros e caíram muito com a versão atual da lente.
A maior revisão sobre o assunto, de 2026, reuniu 214 estudos e mais de 45 mil olhos. A necessidade de retirar a lente ou de reposicioná-la ficou em torno de 2 a cada 100 olhos em 5 anos. Complicações que ameaçam a visão, como descolamento de retina, foram muito raras, e as taxas caíram nos estudos mais recentes [7].
Os pontos que acompanhamos de perto são:
- Catarata. As lentes antigas, sem o furo central, podiam encostar no cristalino e acelerar a catarata. Com a EVO isso ficou raro: num estudo de 10 anos, nenhum olho desenvolveu catarata [8]. Se um dia a catarata aparecer, a ICL é retirada na mesma cirurgia.
- Pressão do olho. Pode subir nos primeiros dias, por causa do colírio ou do material da cirurgia. Por isso medimos a pressão no retorno do dia seguinte.
- Células da córnea. Há uma perda lenta ao longo dos anos, por isso quem já tem poucas células não é candidato, e todo paciente faz a contagem no exame anual.
- Tamanho da lente. Se a distância entre a ICL e o cristalino ficar maior ou menor que o ideal, pode ser preciso trocar a lente. É por isso que as medidas antes da cirurgia são tão importantes.
- Infecção. É rara, como em toda cirurgia intraocular, e é o motivo dos cuidados com os colírios e com a água na primeira semana.
Como é a cirurgia de lente ICL
Tudo começa na avaliação: medimos o grau com e sem a pupila dilatada, a espessura e o formato da córnea, as células do endotélio e o espaço dentro do olho. Com essas medidas a lente é calculada e encomendada sob medida.
No dia, a cirurgia é feita com anestesia em colírio e uma leve sedação, e leva poucos minutos por olho. A lente entra dobrada pela microincisão, que fecha sozinha, sem pontos. Você vai para casa no mesmo dia, com um protetor no olho.
A visão costuma melhorar muito já nas primeiras horas. No dia seguinte a maioria das pessoas já enxerga bem, ainda com o olho um pouco irritado e a luz incomodando.
Pós-operatório da lente ICL
| Atividade | Quando |
|---|---|
| Protetor para dormir | Durante 1 semana |
| Banho e lavar o rosto | Desde o dia seguinte, sem água no olho por 7 dias |
| Trabalho de escritório e computador | Em 2 a 3 dias |
| Exercício leve | Depois de 1 semana |
| Maquiagem nos olhos | Depois de 2 semanas |
| Esforço intenso, esporte de contato, piscina, mar e sauna | Depois de 1 mês |
| Dirigir | Depois da liberação no retorno |
Nas primeiras semanas é normal a visão oscilar um pouco e a luz incomodar. Dor que aumenta, piora importante da visão, vermelhidão forte ou secreção pedem contato no mesmo dia.
Os retornos são no dia seguinte, com cerca de 1 semana, 1 mês e 3 meses, e depois uma vez por ano. O retorno anual é parte do tratamento: é nele que acompanhamos a posição da lente, a pressão do olho e as células da córnea.
Lente ICL, laser ou troca do cristalino?
As três corrigem o grau, mas cada uma serve melhor a um tipo de olho e a uma fase da vida.
| Laser (SMILE pro, LASIK, PRK) | Lente ICL | Troca do cristalino | |
|---|---|---|---|
| Onde atua | Na córnea, retirando tecido | Lente acrescentada dentro do olho | Cristalino retirado e trocado por lente |
| Melhor para | Graus baixos e moderados, córnea adequada | Graus altos, córnea fina ou que não permite laser | Quem já tem catarata ou está perto dela |
| Reversível | Não | Sim, a lente pode ser retirada | Não |
| Foco natural de perto | Preservado | Preservado | Perdido; depende da lente escolhida |
| Halos noturnos | Menos comuns | Mais comuns no início | Variam conforme a lente |
| Acompanhamento | Revisão anual de rotina | Revisão anual obrigatória | Revisão anual de rotina |
Na prática, se o seu grau e a sua córnea permitem laser, ele continua sendo a minha primeira opção: recuperação rápida, sem nada dentro do olho e com resultado excelente. Comparo as técnicas a laser no artigo SMILE pro, LASIK ou PRK: qual a melhor técnica para seus olhos?. A ICL entra quando o laser não é seguro ou quando o grau é tão alto que a visão com ela tende a ser melhor.
Já depois dos 45 a 50 anos a conversa muda. A vista cansada começa a pesar e o cristalino vai envelhecendo. Se a catarata já está atrapalhando, a própria cirurgia de catarata corrige o grau. Se ainda não há catarata, vale avaliar o Presbyond, que trata longe e perto com laser.
Perguntas frequentes sobre a lente ICL
Ela foi feita para ficar no olho por muitos anos, sem precisar de troca. Mas pode ser retirada se um dia for necessário, por exemplo na cirurgia de catarata, lá na frente.
Não. A cirurgia é feita com anestesia em colírio e uma leve sedação. Depois, o mais comum é uma sensação de areia e a luz incomodando nos primeiros dias.
Trabalho de escritório e computador costumam voltar em 2 a 3 dias. Esforço intenso, esporte de contato, piscina e mar ficam para depois de 1 mês.
Pode dar. Na maioria das pessoas o halo é discreto e incomoda menos com o passar dos meses. Nos estudos, a satisfação com a ICL é igual à do laser.
Geralmente, sim. A ICL não depende da espessura da córnea, mas exige espaço suficiente dentro do olho e boa quantidade de células na córnea. Só a avaliação com essas medidas confirma.
Em graus altos, os estudos mostram nitidez e contraste iguais ou melhores com a ICL. Em graus baixos e moderados, o laser entrega qualidade de visão igual.
É um procedimento com custo mais alto que o laser e sem cobertura de plano de saúde. Inclui cirurgião, auxiliar, anestesista e instrumentador, além dos custos do hospital e da própria lente. Por isso, custa em torno de 3 a 4 vezes mais que a cirurgia a laser.
Em resumo
A lente ICL é a resposta para quem ouviu que não pode fazer laser: corrige graus altos sem mexer na córnea, preserva o cristalino e pode ser retirada se for preciso.
Se você tem grau alto ou já ouviu que não é candidato ao laser, fale comigo pelo WhatsApp ou agende uma avaliação.
Referências
- STAAR Surgical. FDA approval of EVO Visian Implantable Collamer Lenses. Business Wire, 28 mar. 2022; e ampliação da indicação para 21 a 60 anos, fev. 2026. Acessar
- Chen T, Li F, Fang D, et al. Higher order aberrations and visual quality after refractive surgeries for myopia: a systematic review and network meta-analysis. Graefe’s Archive for Clinical and Experimental Ophthalmology. 2026. Acessar
- Li HY, Ye Z, Li ZH. Postoperative efficacy, safety, predictability, and visual quality of implantable collamer lens implantation versus small incision lenticule extraction in myopic eyes: a Meta-analysis. International Journal of Ophthalmology. 2023;16(3):442-452. Acessar
- Cao K, Zhang J, Wang J, et al. Implantable collamer lens versus small incision lenticule extraction for high myopia correction: a systematic review and meta-analysis. BMC Ophthalmology. 2021;21(1):450. Acessar
- Zhan B, Huang Y, Chen X, et al. Comparison of long-term visual quality after keratorefractive lenticule extraction and implantable collamer lens V4c for high myopia. Journal of Cataract and Refractive Surgery. 2024;50(11):1157-1164. Acessar
- Cheng M, Li M, Xu G, et al. Seven-Year Clinical Outcomes and Optical Quality of Implantable Collamer Lens Implantation Versus KLEx for Myopia Correction. American Journal of Ophthalmology. 2026;284:144-152. Acessar
- Passaro ML, Buzzi M, Qureshi R, et al. Potential Harms of Posterior Chamber Phakic IOL: A Systematic Review and Meta-Analysis of Complication Incidence. American Journal of Ophthalmology. 2026;285:73-82. Acessar
- Chung B, Choi JY, Kang DSY, et al. Ten-Year Clinical Outcomes of V4c Implantable Collamer Lens Implantation. American Journal of Ophthalmology. 2024;269:1-10. Acessar




