A verdadeira epidemia: miopia nas crianças
A verdadeira epidemia: miopia nas crianças

Outra epidemia em andamento: a miopia em crianças

publicado originalmente no portal Just Real Moms

Comecei o texto do mês passado comentando que durante minha infância lembro de poucos primos ou amigos da escola que usavam óculos.

Hoje em dia, vários dos amiguinhos dos meus filhos já usam.

Existe uma tendência de aumento de míopes no mundo todo, uma verdadeira epidemia de miopia. Então, o que podemos fazer quanto a isso?

A miopia já vem aumentado há algum tempo, estima-se que em 2050 pelo menos metade da população será míope (hoje está em torno de 28%).

Sabemos que a questão genética tem influência, filhos de ambos os pais míopes têm 50% de chance de também serem míopes.

Quando apenas um dos progenitores é míope essa chance cai para 33% – e quando não há pais míopes, mesmo assim a chance de desenvolvimento de miopia é de 25%.

Esse é o risco genético, vamos conversar sobre os riscos ambientais.

O que influencia na chance de nossos filhos precisarem de óculos?

O que realmente se sabe é que o Sol influencia na estabilização do grau. Recomenda-se para crianças em idade escolar pelo menos 2 horas por dia de exposição a luz natural.

A falta da luz solar influencia na produção de neurotransmissores na retina que inibem a miopia. Simplificando, um olho que não recebe luz natural, tenta aumentar de tamanho para receber mais luz, e quanto maior o olho, maior a miopia.

Um estudo chinês com cerca de 120.000 crianças e adolescentes entre 6 e 13 anos de idade foi publicado no JAMA no começo deste ano trouxe dados interessantes e preocupantes:

  • Dados de 2019 – nas crianças entre 6-8 anos havia 5% de míopes.
  • Dados do final de 2020 – miopia na mesma faixa etária agora é de 20%!!

E ainda, esse aumento aconteceu também em todas as outras faixas etárias do estudo.

Por que tivemos esse aumento? A explicação mais plausível é que durante o lockdown houve diminuição do tempo fora de casa, e consequentemente menos exposição ao Sol.

Além disso, outro fator que parece estar envolvido e é de extrema necessidade que tenhamos conhecimento é o aumento de exposição a luz artificial.

Essa luz não tem as mesmas características que a natural, e não libera a produção dos mesmos transmissores necessários para a inibição da miopia.

Acho que as melhores recomendações a respeito de exposição a telas em crianças vêm da sociedade brasileira de pediatria:

  • até 2 anos não devem ter contato com telas
  • entre 2 e 5 anos até 1 hora por dia, fracionada e supervisionada
  • entre 6 e 10 anos, até 2 horas ao dia, fracionadas e supervisionadas
  • dos 11 aos 18 anos de idade até 3 horas por dia
  • sem telas durante refeições e desligar pelo menos 1 hora antes de dormir

Se você, assim como eu, percebeu que durante a pandemia fica impossível de seguir essas recomendações, acabou de entender a razão do aumento de casos no estudo chinês.

Adicionalmente, a alta miopia aumenta o risco de doenças oculares importantes.

Por exemplo, miopia acima de 6 dioptrias traz 21,5 vezes mais chance de descolamento de retina e 40 vezes mais chance de maculopatia miópica. Ambas são doenças que podem cegar. E quem começa mais cedo, tem mais chance de ter alta miopia.

Algumas coisas que dá para fazer nesse momento para tentar parar essa epidemia de miopia:

A regra dos 20: a cada 20 minutos olhar por 20 segundos para fora da janela. Isso faz a musculatura dos olhos relaxar e focar para longe, diminuindo a tensão da musculatura de dentro dos olhos

Lembrar da importância da exposição ao Sol, então fazer as atividades perto da janela, no quintal, enfim, onde der para receber um pouco de luz natural. Lembrar que o ideal é pelo menos 2 horas/dia.

Lição para levar pra casa: os filhos imitam os pais. Se passamos grande parte do nosso tempo com eles olhando para o celular, não tem como querer que eles não ajam igual.

Então, na infância podemos ensiná-los a ter uma relação mais saudável com eletrônicos, sem excessos.

Acho que todos queremos que eles sejam adultos melhores do que nós mesmos, não é?

Adultos melhores…e que enxerguem melhor!

Por fim, se o seu filho já precisa usar óculos, leia então esse texto “Meu filho precisa de óculos, e agora?

bebê usando óculos na cabeça

Dr. Hallim Féres Neto

Formado em Medicina pela Faculdade de Medicina do ABC em 2004, Residência em Oftalmologia pela Faculdade de Medicina do ABC em 2007 e especialização em Gestão em Saúde no Insper em 2015. É Cirurgião de segmento anterior no Hospital Israelita Albert Einstein desde 2010 Possui especialidade em: Cirurgia Refrativa, Catarata, Ceratocone e Adaptação de Lente de Contato

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